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O teu desassombro está em ti -Sebastião Alba

"Two Callas" - Imogem Cunningham
Escrevo para o vento
contra o odioso silêncio
os seus bichos milenares
e o vazio que ganha contornos de branca loucura
uma sanguessuga obscura e profunda
dentro das imagens incendiadas
onde recordo o rosto que nunca conheci
as pessoas solares afastaram-se de mim
as minhas feridas brilham
como vibrantes libélulas
por cima das águas estremecidas pela insónia
deixei de as lamber
porque sou um soldado com uma só dor original
erguida da fundura do meu nome
algo que não podes curar com o teu sexo
e o teu cheiro de laranjeira marinha
que se passa aqui?
devo carregar a noite nos ombros e nos olhos
devo ser fiel aos meus sentidos e sentir
abandonar e abandonar-me
ressuscitar morrendo
por dentro da Casa da beleza
I N U T I L
N
U
T
I
L
Esta cabeça fonética com caixas de musica
luzes precariamente equilibradas na linha do horizonte
venenos acessíveis a poucos
este mundo ligado ás artérias das madrugadas
aos compassos do poema que abre e fecha a paixão
as flores internas
acendem esta boca repentina de astros
estas mãos torrenciais de azul
esta pele levantada para que vejas a carne combustível
sobre o amplexo perfeito do sonho
um trompete arrancada à raiz da lua
transbordantes desastres pressentidos
na fluidez fotográfica dos corpos
este quarto cheio de ignorância de mim próprio
este coração que bate para trás
devora a memória que diz o gelo
de todas as noites em que não te encontrei
de todos os dias em que passas
e me deixas à chuva ardendo por uma palavra
não quero saber de mim
já não me importo
não tenho medo do eclipse
que alastra pelos dedos alucinados
sobe à cabeça esgotada pelo silencio
o nervo da solidão agreste pensa
essa mulher de pedra esmagada contra a eternidade
sinto a voz que minha Mãe me deu
ténue vaga
aparição
longínqua espuma movimentando-se
na pálpebra que fecha
a luz que me habitava
antes de me precipitar
que se passa?
não estou triste
não tenho ambições
guardo as coisas que importam
debaixo da língua
um lugar para a tua boca devorar
quando quiser.






Edward weston - "Clouds"
Senhora fantasma
Senhora de notas musicais divididas pelo vento
que translúcido passa na pele dos crentes
Senhora fantasma dentro dos meus livros
nas folhas diárias escritas pelos dedos desamparados
Senhora fantasma estou ao telefone
e todas as extensões estão ocupadas
cizem-me que serei atendido o mais breve possível
mas hoje é sexta á tarde
é assim desde que nasci
pleno de silêncio frágil e perturbado
das palavras acordadas pelos dias despovoados
dilatados por penumbras naufragadas
feridas antigas e futuras
pássaros pressentidos pelo fim do Inverno
queimados pela matéria solar de suas asas
senhora branca livre
aqui estou sentado com o meu casaco de ilusões
e o velho lápis à trela como um cão
não te espero nem te obedeço
sou apenas um peixe
na madrugada das águas destruídas pelo entardecer
um corpo onda espalhado na sonolência do areal
uma gota de chuva que trazes no teu olhar de açúcar
quando te lembras de mim.






Mark Tobey
Estar descalço na noite
tomá-la pelo braço
trabalhá-la
numa visão para o sublime do sonho
por mais que desvie os olhos
a visão acrescenta-se ao iluminar dos objectos
dá-lhes forma e nomes e boca para o seu dizer
o encantamento pleno do sensível
e eu estou entre eles
no meio deles
num espaço/industria de absoluto rigor
estou na fome vertiginosa do pensar
sou uma cabeça poema
um coração
uma laranja com os seus gomos paradoxais
uma orquestra utópica
que interpreta com os olhos da liberdade os seus poemas
instrumentos movimentados pela mão que escolhe o sentido
uma cascata de águas límpidas
um caminho para a palavra
de nós a claridade de um movimento digno
uma paixão arlequim
um trompe d`oeil
um homem desmedido dentro do significar-se
na agudeza do dom
volto sempre a ti
volto da luz que sobrou dos dias
ao que resta da devastação
e a devastação não é não estares
a devastação é não existires.















Tom - "Nighthawks at the Dinner"
Não foste breve na minha noite
nem tangível como as faúlhas brancas do poema
por exemplo o abismo onde se escorrega
é o pássaro das coisas intensas como a boca do vento
no olhar vadio da espuma de uma vaga
Sou estrangeiro à vulgar felicidade dos acrobatas
mas torço as palavras ao firmamento
e danço generalizadamente mesmo quando não escrevo
mostro as mãos quotidianas
orquídeas em flor abertas em lençol sobre a terra peixe
ou nuvens sentadas á porta dos instantes
pequenos milagres
assombrações para um corpo
que alguém tem de encontrar na posição correcta
uma janela como um coração
e um muralha de musica para o abrir e fechar sem pensar nisso
nada mudou sobre os arcanos do tempo
na saliva com que se mata o ultimo beijo
eu vejo as ruínas do homem breve e o primeiro gato
que salta sobre os ombros da madrugada
é a única coisa decente que hoje poderá acontecer-nos.






















O sal que das tuas asas se desprende denuncia o mar onde adormece a chuva que obliqua fere as teclas do piano minimal
berço de corpos desabitados de amor
descansam desertos de energia
os corações estremecem metodicamente ao atravessar do sangue
a presa e o caçador abraçam-se na derradeira paixão que antecede a morte
as mãos dadas ao suor que destrói para sempre as ervas daninhas do passado na transfiguração da luz
um presente
uma fuga dolorosa
uma crueldade mimética
absurda oração das mãos que se não dão
um piano neste quarto gradeado
um tumulto nostálgico como um virar de página
o tempo que escorre e afoga o naufrago gota a gota.
Levantou-se
relembrou todas as letras
que dos poemas sabia existirem
e a golpes de azul
desapareceu por entre alquimias
de fumos de cigarros
Notável e Profundo
são as únicas palavras inscritas na sua lápide.

"Nude in Silence" - Jacqui Faye Michel
Não tão silencioso
que não gostasses que te ouvissem
não tão inteiro
que não preferisses que te partissem
não tão ferido
que não quisesses que te salvassem
não tão escuro
que os teus olhos não cegassem
não tão intenso
que não temesses pela tua segurança
não tão ridículo
que não te permitissem somente a verdade
não tão puro
que não pudesses do nojo extrair a beleza
não tão cortante
que pudessem as facas beijar a tua língua
e por fim soubesses administrar o teu silêncio.




Soa o canto do rouxinol negro
como a bala que fala
queimando de morte o corpo dilacerado
pelo beijo da claridade do ultimo dia
o solo etéreo na boca que não diz
o interprete da minha noite
o rouxinol negro tatuado nesta pele
pedra silente que atravessa o espaço
carrilhão de desenganos
depois o guardião da noite sentenciou-me
e eu fugi através dos ciprestes
que guardam o tumultuoso rio
eu fugi e mergulhei
nas muitas águas dos futuros sonhos
onde habitaremos os nossos corpos regressados do silêncio
eu fugi vertendo a dor nos passos que ardem os caminhos
Devolve-me ás estrelas
porque o amor
é o único milagre digno desse nome

Mark Ryden





Deixo a cadeira
onde se sentava a imagem pura de minha mãe
parto sem vontade de partir
as fotografias amontoadas pelo chão…
a cópia debotada de um quadro de Vermeer
“Rapariga Com Brinco De Pérola”
Confusas são as coisas da terra
Para as mãos simples do pescador
Que soletra baixinho
Rapariga com…
brinco de água
minha mãe de água
a ti regresso silencioso e liquido
nas tintas dos quadros de Vermeer
nesta praia repleta de astros
que são as minhas mãos quebradas
pela distância de te não pertencer.

