quinta-feira, 30 de Julho de 2009

Caminho



Continuamos em: Infinitoatlantico.blogspot.com

quarta-feira, 8 de Julho de 2009

O fim do principio

Tarde e a más horas, mas ainda assim a tempo.

Agradeço sinceramente a todos, a ilimitada partilha e o prazer que ao longo de todo este tempo foi o vivermos este espaço fluído/fluxo/flexo/reflexo.

"Enquanto houver estrada para andar a gente vai continuar", brevemente noutro lugar....

segunda-feira, 3 de Novembro de 2008

A Tua Boca



"Two Callas" - Imogem Cunningham

Escrevo para o vento
contra o odioso silêncio
os seus bichos milenares
e o vazio que ganha contornos de branca loucura
uma sanguessuga obscura e profunda
dentro das imagens incendiadas
onde recordo o rosto que nunca conheci
as pessoas solares afastaram-se de mim
as minhas feridas brilham
como vibrantes libélulas
por cima das águas estremecidas pela insónia
deixei de as lamber
porque sou um soldado com uma só dor original
erguida da fundura do meu nome
algo que não podes curar com o teu sexo
e o teu cheiro de laranjeira marinha
que se passa aqui?
devo carregar a noite nos ombros e nos olhos
devo ser fiel aos meus sentidos e sentir
abandonar e abandonar-me
ressuscitar morrendo
por dentro da Casa da beleza
I N U T I L
N
U
T
I
L
Esta cabeça fonética com caixas de musica
luzes precariamente equilibradas na linha do horizonte
venenos acessíveis a poucos
este mundo ligado ás artérias das madrugadas
aos compassos do poema que abre e fecha a paixão
as flores internas
acendem esta boca repentina de astros
estas mãos torrenciais de azul
esta pele levantada para que vejas a carne combustível
sobre o amplexo perfeito do sonho
um trompete arrancada à raiz da lua
transbordantes desastres pressentidos
na fluidez fotográfica dos corpos
este quarto cheio de ignorância de mim próprio
este coração que bate para trás
devora a memória que diz o gelo
de todas as noites em que não te encontrei
de todos os dias em que passas
e me deixas à chuva ardendo por uma palavra
não quero saber de mim
já não me importo
não tenho medo do eclipse
que alastra pelos dedos alucinados
sobe à cabeça esgotada pelo silencio
o nervo da solidão agreste pensa
essa mulher de pedra esmagada contra a eternidade
sinto a voz que minha Mãe me deu
ténue vaga
aparição
longínqua espuma movimentando-se
na pálpebra que fecha
a luz que me habitava
antes de me precipitar
que se passa?
não estou triste
não tenho ambições
guardo as coisas que importam
debaixo da língua
um lugar para a tua boca devorar
quando quiser.

sábado, 25 de Outubro de 2008

Treva




O poema move-se na obscuridade
Do seu escuro pensar
no jardim de negras flores onde o poeta sangra
Perde-se o nome na boca errada
o cansaço e a insónia crescem dos olhos metafóricos
cães fantasmas devoram a paixão
onde a vida ganha violentas formas
uma estranha águia rasga com o seu bico a têmpora febril
do homem que escreve
o seu abismo
a sua árvore
a sua melancolia
cravada na limpidez dos dedos da terra devastada
pelas avenidas desarrumadas onde deambulo
escurecido de beleza rudimentar
fixo a corda ao cais maternal
onde recordo a ternura completa
das roseiras de seda
a infância arrasada pelo crescimento do corpo
alimento o peixe estelar
trabalho para ti desde sempre
mesmo que não o entendas
mesmo que não o vejas
mesmo que não o sintas
espero em silencio
como o monge de Friedrich
esqueço as cores que me habitavam
entrego-me ao minucioso trabalho
das mãos por dentro do corpo
à colheita da luz que escorre das madrugadas
dos campos ferozes onde habitamos
a Casa de solar arquitectura
eu imagino com delicadeza essa claridade
as sementes preciosas do amor por germinar
veneno espalhado pelo sonho por sonhar
um alicerce suspenso na noite
que me toca o rosto iluminando-o de exuberante treva.

terça-feira, 21 de Outubro de 2008

Verdadeiramente Teu


Rodin - "The Walking Man"


Verdadeiramente teu
O que significa isso?
O chão onde se cai
é o lugar onde se desiste
O zero deserto
decerto
seres o meu centro
ou talvez salvares-me a vida
com a tua mão de estrela
e o teu vestido de negro infinito
cada coisa tem o seu peso propicio
e a tua ausência é o silencio que me queima o grito
uma melodia de quem se perde abraçando
o vermelho amargo das lágrimas dessa árvore
que cresce do meu rosto devorado
até ás indizíveis palavras por detrás do poema
o que te digo
é o que não escutas
o que te ofereço
é o que não queres
mas verdadeiramente teu
sou eu.

Não partas antes de chegares
não me deixes sem me tocares.

quinta-feira, 16 de Outubro de 2008

Este Blog foi agraciado com o prémio Dardos pela ASTRA, que tem também o link nos favoritos: "Outros Corpos". Seguindo as regras de atribuição, aqui fica, desde já o meu sincero agradecimento publico e também 15 dos meus amigos predilectos, a quem eu atribuo a distinção Dardos.

Relembro a este propósito que:

"se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.Quem recebe o “Prêmio Dardos” e o aceita deve seguir algumas regras:
1. - Exibir a distinta imagem;
2. - Linkar o blog pelo qual recebeu o prémio;
3. - Escolher quinze (15) outros blogs a que entregar o Prémio Dardos.


Ad Astra em http://almaversusmare.blogspot.com/
Joana em http://oitavaedicao.blogspot.com/
José Alexandre Ramos em http://quefarei.blogspot.com/
SMA em http://caminho-de-terra.blogspot.com/
Cláudia em http://bluemolleskin.blogspot.com/
Maria Quintela em http://dolugardemim.blogspot.com/
Luis Galego em http://infinito-pessoal.blogspot.com/
R. em http://a-minha-nuvem.blogspot.com/
Maria em http://ocheirodailha.blogspot.com/
Graça em http://ortografiadoolhar.blogspot.com/
Sofia em http://sofialisboa.blogspot.com/
Tchi em http://perolasdeouro.blogspot.com/
Vieira Calado em http://vieiracalado-poesia.blogspot.com/
Pi em http://pas-s-ages.blogspot.com/
PNS em http://4esq.blogspot.com/

segunda-feira, 13 de Outubro de 2008

Palavra




Pudemos colocar a fé onde nos é permitido
ou seja a meio do caminho onde só passam as crianças
e os trespassados
e os desalojados
e os desprezados
e os que por abrigo escolheram o céu nocturno
para abrir os olhos da tempestade que é estar nu
e se transformaram em gente imensamente rica
porque puderam fechar os buracos negros da memória
transformar os erros em clarividentes metáforas
a sujidade em branco amanhecer
e esquecer…
a minha direcção é entre esse vento norte
e a verdade que tudo magnetiza
medusas estelares
cidades costeiras precipitas pelo grito oceânico
constelações iluminadas na intensidade
dos teus olhos boreais
os passos em volta do meu nome
levantado entre império nenhum e as mãos abertas
sobre as nossas frágeis vidas
atiro-me contra as paredes futuras de nossa Casa
sonho um coração felpudo feito de espuma estrutural
e asas de borboletas azuis
escrevo o canto do pássaro matinal cheio de folhas
e a ternura desmedida do meu cão
e sobretudo
o meus sangue sentido no afecto das tuas mãos de vidro crepuscular
e não preciso de metáforas
para escrever o que é centro no poema
onde suavemente irrompe o que sempre será
a boca encontrada no silencio da busca
um lugar onde se podem queimar os erros do passado
um ballet de intangíveis luzes para pernoitar no abandono do corpo
dias e noites demasiadas
numa única palavra
que não precisa de ser dita de tão evidente.

terça-feira, 30 de Setembro de 2008

Questões Pertinentes




Pergunto à porta fechada
Pergunto à madrugada
Pergunto ao sonho limpo
Pergunto aquilo que sinto
Pergunto ao bosque
E á língua que cospe
Pergunto à esperança
Porque é que não dança
Pergunto ao momento
Pergunto ao relento
Pergunto ás tuas pernas
Porque seguem esse caminho
Pergunto à verde folhagem
Onde se esconde a tua imagem
Pergunto à delicada baleia
E à aranha sem teia
Pergunto ao animal furtivo
E ao homem pensativo
Pergunto ao olhar azul
E ás aves do sul
Pergunto ao sem abrigo
Expulso cem mil vezes
Pergunto ao dono do paraíso
e aos vendedores de maçãs
Pergunto à santíssima trindade
onde está a caridade
Pergunto ao surrealistas
Pergunto aos trapezistas
Pergunto aos panfletários
Pergunto aos operários
Pergunto aos anarquistas
Pergunto aos perfumistas
Pergunto aos burros
especialmente ao de Bresson
Pergunto ás coisas vivas
Pergunto ás rugas lisas
Pergunto aos anjos loucos
Porque somos tão poucos
Pergunto aos corretores da bolsa
Pergunto aos superiores hierárquicos
Pergunto a minha mãe
á noite entre lágrimas
porquê?
Pergunto à cega visão que me acompanha
e a essa terra tão estranha
Pergunto ao turbilhão do sonho
e ao alimento que colho
Ao mar que esconde esta raiz
E à aberta cicatriz
Pergunto ao teu sorriso
Pergunto ao meu siso
Pergunto ao escorpião cósmico
Pergunto ao cigano bósnio
Pergunto ao louco
O que significa pouco
Pergunto ao coração nu
Onde estás tu
Pergunto ao cliente
Pergunto ao ausente
Pergunto aos desaparecidos
Pergunto aos maridos
Pergunto à mediocridade
Pergunto á solidariedade
Pergunto ao negro da noite
Porque se veste de branco
Pergunto ao meu corpo
Pergunto à máquina de barbear
Porque não sabe cantar
Pergunto à cidade
Pergunto à humanidade
Pergunto ao cruzamento
Pergunto ao desalento
Pergunto ao tribunal
se posso comemorar o Natal
Pergunto ao ódio
qual o seu próximo episódio
Pergunto ao sarcasmo
Pergunto ao orgasmo
Pergunto ao pateta
Pergunto ao poeta
Pergunto ao cão
Pergunto à mão
Pergunto à plasticina
Pergunto à cocaína
Pergunto ao diabo
Pergunto ao jurado
Pergunto ao canalha
Pergunto à navalha
Pergunto ao surdo
Pergunto ao uivo
Pergunto ao lobo
Pergunto ao bobo
Pergunto à boca
Pergunto à louca
Pergunto ao amor
Pergunto ao terror
Pergunto ao sono
Pergunto ao dono
Pergunto ao camaleão
Pergunto ao coração
Pergunto ao impossível
Pergunto ao risível
Pergunto ao cemitério
Pergunto ao mistério
Pergunto à ternura
Pergunto à loucura
Pergunto ao vinho tinto
porque ás vezes minto
Pergunto ao mundo
Pergunto ao fundo
Pergunto aos teus braços
Pergunto aos meus passos
Pergunto à beleza
Pergunto à tristeza
Pergunto à melancolia
Pergunto à poesia
Pergunto à ferida
Pergunto à vida
Pergunto ao beijo
Pergunto ao desejo
Pergunto à casa assombrada
Pergunto à infância roubada
Pergunto à lei
não sei…?
Pergunto à serpente
e a muito boa gente
Pergunto-te a ti
Pergunto por ti
porque não morri…

quarta-feira, 24 de Setembro de 2008

Estrela do Mar


Klimt - "The Kiss"

Não faz sentido o meu coração
ao que parece fugiu deste corpo
estranho mas verdadeiro
verdadeiro mas estranho
estranho mas verdadeiro
eu posso tropeçar nas tuas veias
antes de me queimar
espero que não te importes
estrela do mar.

Ela



Ela despiu-se e flutuou ao vento
Fez-me ver as serpentes de que é feito o meu corpo
uma paisagem bruta como o amanhecer do mundo

domingo, 14 de Setembro de 2008

As coisas que não Cabem em Palavra Nenhuma


Antony Gormley


As coisas que não cabem em palavra nenhuma
dormem no lado sombrio da colina
onde repousa a mais bela flor
com a sua haste de treva imprescindivel
e olhos maiores do que a salvação
a casa aonde não regressaremos
destaca-se nas copas das mais altas árvores
nos bicos translúcidos dos pássaros celestes
ou seja nos corpos naufragados um no outro
um para dentro do outro
vazados na luz desmesurada que trespassa as bocas
um que mostra o fora do outro
por dentro das nuvens lençóis
sobre as almofadas onde as cabeças sonham
o arder dos mesmos campos
vibrantes tempestades para enfrentar o medo de acordar
porque acordar não é realmente abrir os olhos
porque os olhos só fechados percorrem a viagem da grande significação
estamos tão unidos
neste ecrã de flores aquáticas
nenúfares de colocar o coração
que poderia dizer meu amor
mas tu não me pertences
e eu sou de ti uma breve cintilação
mas eu sei
porque as horas se transformaram em dias
e os dias em anos
eu sei
porque o fim não acabará com a nossa história.

domingo, 7 de Setembro de 2008

Quando te Lembras de Mim



Edward weston - "Clouds"

Senhora fantasma
Senhora de notas musicais divididas pelo vento
que translúcido passa na pele dos crentes
Senhora fantasma dentro dos meus livros
nas folhas diárias escritas pelos dedos desamparados
Senhora fantasma estou ao telefone
e todas as extensões estão ocupadas
cizem-me que serei atendido o mais breve possível
mas hoje é sexta á tarde
é assim desde que nasci
pleno de silêncio frágil e perturbado
das palavras acordadas pelos dias despovoados
dilatados por penumbras naufragadas
feridas antigas e futuras
pássaros pressentidos pelo fim do Inverno
queimados pela matéria solar de suas asas
senhora branca livre
aqui estou sentado com o meu casaco de ilusões
e o velho lápis à trela como um cão
não te espero nem te obedeço
sou apenas um peixe
na madrugada das águas destruídas pelo entardecer
um corpo onda espalhado na sonolência do areal
uma gota de chuva que trazes no teu olhar de açúcar
quando te lembras de mim.

quinta-feira, 4 de Setembro de 2008

Fantasma


Giovanni Baldini


Esticar a pele ao máximo até que saia o fantasma que te procura
por sobre a luminosa ausência do teu florir
a noite assinala com seu inquietante rosto branco
A vida das cidades onde não passas
eu voo sobre os anos perdidos
marcados no corpo devastado pelo incêndio da busca
não sei como escrever as ondas melancólicas no seu azul continuado
azul de azul
azul para o azul dos olhos
terra mar
golpes de vento para melhor respirar
como se a casa quisesse subir aos mais altos astros
onde tu concerteza me esperas
porque eu sou o teu filho habitado de escuros sentidos
de escuros dedos e mel de Primavera
e um fio de sonho tecido pela aranha do coração.

quinta-feira, 28 de Agosto de 2008

Leptis


Shifano - "Leptis Nasceu Aqui"

A noite mordida por debaixo do candeeiro da madrugada
abre os olhos ao sonho possível
dos dias inquietados
dir-se-ia pela tranquilidade aparente das águas do mês de Agosto
ou pelo traço que um sorriso pode deixar no azul da noite
estrelas cadentes esperam pelo seu destino
uma casa onde a infância não termina
sento-me á espera da memória intocada
matéria essencial da liberdade
para que liberte os amigos das horas da ausência
a visão memória como respiração absoluta
a centelha primordial para o fogo de um abraço
os instantes por dentro dos obscuros fragmentos luminosos
que cosem o passado ao devir
molduras
letras grandes
rosas púrpuras
pequenos milagres
fermentos no pão da boca que procura a língua
para dizer os teus passos na minha direcção
ou apenas um barco improvável na futura chuva
onde habitaremos intensamente um nome.

Agora as luzes são tão vagas
que não me importo de fechar os olhos e flutuar.

segunda-feira, 4 de Agosto de 2008

Godard?


Patrick John Mills - "Sunflower Man"


Entra pela ínfima porta da alegria
pergunta quem é Godard?
um rio tranquilo
algumas maçãs no sossego de suas árvores respondem
Godard o construtor
Godard o sábio
Godard sobre a maçã sossegada
Godard a árvore
Godard que passa em frente à minha janela
Godard de chapéu vermelho
no braço esquerdo tapetes
no direito relógios e outros dourados
mais os planetas insuspeitos a rodopiarem á sua volta
ninguém vê
ninguém repara
na brancura dos seus gestos como as manhãs de Agosto
no seu passaporte escrito a sonho
e que esse não está à venda
Godard
no braço esquerdo tapetes
no direito relógios e outros dourados

Eras doce ainda
quando os teus olás tinham significado
agora tens o destino desfigurado
pelas implicações da longa desilusão dos minutos passados
e das horas que hão-de vir e magoar
tremes, mordes a língua do cão que és
um truque para a sobrevivência de estrangeiros
em lugares longínquos
Godard
ilegal
queria voar para o resto do mundo
exigindo a utopia
a viagem para um centro
onde se respirasse
um consenso comunicante de espíritos livres
uma arqueologia para um futuro in possível
a nossa música como diria
começa no purgatório e termina no paraíso
no braço esquerdo tapetes
no direito relógios e outros dourados
Godard segue o seu caminho
brilhando.

domingo, 13 de Julho de 2008

Minusculo Infinito


Bacon - "Study From the Human Body"

A colher onde língua nenhuma
o guardanapo onde a boca talvez
as mãos onde uma pele qualquer
o olhar onde a cegueira é azul
o chão
a melhor cama para o fracasso
a voz de lamina
que carrega o nosso nome
gostaria de saber a fundura desses golpes
o aspecto urgente dessa ferida solar
nós esperamos por esse projecto
que marca a carne
nós esperamos pelo nosso verdadeiro baptismo
para sermos qualquer coisa semelhante a nós
qualquer coisa contra a morte
um passo
um cotovelo
uma madeixa loira
um mergulho na noite branca
um desperdício do pouco que nos resta
no meio do nada
tudo
no caminho para coisa nenhuma
tu
um movimento de penetração na terra
raiz para nos mantermos de pé
um sentimento onde me possas conhecer absolutamente
florires-me
ligares-me
destruíres-me
parires-me
ou o fim do jogo
fim do precisares de mim
fim do precisar de mim
fim do numero de porta
fim da casa
fim deste lugar
ou guitarra nos dedos das mulheres adormecidas
pelo amor longínquo
o amor correcto e certeiro
o amor lâmpada
o amor no coração do poema
sempre o amor à tarde
tarde demais...

quinta-feira, 10 de Julho de 2008

Beautiful Present


Robert Ketchum

Uma vírgula pode fazer todo o sentido
neste texto demasiado inútil
um sopro
onde persiste o teu silencio em cada osso
aves impossíveis à transparência do sonho
ondulações subtis
recados de espuma
desconcertante sinfonia
semeada a meus pés
mastros matinais de navios fantasmas
velas de pendurar as horas da tarde
um risco de luz
o teu verdadeiro nome
beijo de água
tu danças à minha volta
eu mergulho em ti
eu sou profundamente em ti
e estou no sitio certo para deixar de respirar.

domingo, 6 de Julho de 2008

Orquestra Utópica



Mark Tobey

Estar descalço na noite
tomá-la pelo braço
trabalhá-la
numa visão para o sublime do sonho
por mais que desvie os olhos
a visão acrescenta-se ao iluminar dos objectos
dá-lhes forma e nomes e boca para o seu dizer
o encantamento pleno do sensível
e eu estou entre eles
no meio deles
num espaço/industria de absoluto rigor
estou na fome vertiginosa do pensar
sou uma cabeça poema
um coração
uma laranja com os seus gomos paradoxais
uma orquestra utópica
que interpreta com os olhos da liberdade os seus poemas
instrumentos movimentados pela mão que escolhe o sentido
uma cascata de águas límpidas
um caminho para a palavra
de nós a claridade de um movimento digno
uma paixão arlequim
um trompe d`oeil
um homem desmedido dentro do significar-se
na agudeza do dom

volto sempre a ti
volto da luz que sobrou dos dias
ao que resta da devastação
e a devastação não é não estares
a devastação é não existires.

terça-feira, 1 de Julho de 2008

Unicamente...


Andy Waite - "The Weight of Wings"


As palavras pregadas aos pulsos do poeta
doem na paisagem branca onde se espreguiça o poema
um equilíbrio instável
brilha na ferocidade insegura do deslumbramento
esconde-se na agudeza do sonho
bate contra as pedras como os farrapos dos naufragados
é um torso de mármore
um corpo sublime para venerar
um ritmo dormente onde cresce a melancolia
pelos braços e pernas do poeta
o poema cresce como semente da carne
aranha louca
o poema indestrutivel
uma interferência para acordar a noite
uma porta com flores
uma praça imaterial onde te encontro inteiramente
uma página púrpura
uma máquina de pensar
porque tu és uma gota livre
sinfónica
polifónica
nuvem nos olhos de cristal dos peixes
asas de mar
asas imediatas no amadurecimento da luz
é manhã
é argila futura para as estátuas
onde sobressaem pequenas estrelas
com o céu das suas luzes
e não sei como dizer esse brilho
das coisas que me cercam e libertam
todos os rios que me transportam
no vagar do seu caminho
eu sou a margem da água por purificar
uma criança espantada pela noite
que escreve unicamente para ti.

quinta-feira, 26 de Junho de 2008

Cicatriz


"The Chemical Of Us" - Frank To

Escrever para a escuridão
é um ofício de luzes
e nós continuamos
à procura do sagrado dos dias
ou do chicote do amor
do inferno da graça
entre a permanência e a destruição
um movimento intenso para um nascer
um sentido para fora
uma contracção
um sentido como uma rosa altiva
uma boca metódica conceptual
uma flor de violenta paisagem
onde se presume a ausência da sombra
uma ilha desaparecida na plataforma do tempo
e uma canção para abraçar os extremos
a humanidade do teu rosto caído
essa grande cidade perfeita
como um talher que corta com simplicidade o meu peito
num piscar de olhos como um relâmpago
para ferir a carne desamparada
no cimo dos mais altos montes
a cor mais intensa da brilhante cicatriz.

quarta-feira, 25 de Junho de 2008

Pássaro Azul




O que brilha mais não é o teu dinheiro
podes deixá-lo à porta antes de entrares
aqui o que podes encontrar é o canto do pássaro azul
e isso não podes depositar em nenhuma conta bancária.

domingo, 22 de Junho de 2008

Desaparecidos


"Remembrance" - Bill Viola

As asas começam a viagem
do voar dos dias futuros onde tudo perderemos
a crueldade da memória é um tesouro
vincado no rosto que diariamente aprofunda
o abandono da casa assombrada onde pernoitamos
um edifício destroçado tamanho do coração
é tudo o que podemos oferecer
à língua amarga dos desaparecidos.

quarta-feira, 18 de Junho de 2008

Outra Canção


Marnix De keukelaere

Outra canção para o ouvido triste
Outra vontade para o coração
Um violino para o lugar mais fundo
Que se chama tempestade
Uma algema para as asas do pássaro naufragado
Uma bala para a mentira
Uma caverna de laminas para o sangramento da solidão
E uma voz que não seja uma sombra de rasgados destinos
Tu conheces-me pelo fogo
Porque me viste crescer ao lado das magnólias de espuma.
Viste-me arder profundamente
E isso não cabe em nenhum papel.

terça-feira, 17 de Junho de 2008

Godot





O poema começava com os lábios fechados
e a língua cosida ao coração
este ainda batia ao compasso das promessas por cumprir
a noite deitava-se ao lado do corpo insone
os dias acorrentavam-se ás horas das perturbadas penumbras
quando o sonho saía com o seu cão para o xixi matinal
Depois calçou os sapatos da memória
e esperou que uma dor o despertasse para a permanecia entre os vivos
e que do absoluto naufrágio
muito haveria ainda a perder
que não fosse só a pele e os ossos
do seu nome fictício.

domingo, 15 de Junho de 2008

Estrelas


"The Dark River To Antares" - Maximo Ruiz

Os melhores dias afundados na medula do tempo
as ruas interiores sob as escondidas paisagens nocturnas
a viagem e o convite à viagem
as margens abertas no dentro de um ventre
o húmus primacial feminino
um deus na tonalidade do vento
que arrasta para a parábola a ferida
um corpo revelação para animais famintos
a ocultação do anunciado
o reencontro por entre flocos de neve perdidos
sob a mesa do olhar senta-se a cúpula celeste
A plenitude da noite deitada no esquecimento
do teu sorriso
puros fragmentos de luz
os teus olhos
estrelas…

quinta-feira, 12 de Junho de 2008

um


Sandro Botticeli - St. John Head

Acordo para o sol
e sinto a sombria ausência dos amigos
cujas asas se dilataram em relembrado naufrágio
na mesa ardida sob a clepsidra do tempo
os rostos fitavam-se na inquietude da partida
o vinho selava ou abria a ferida
iluminava pela última vez
o falso lugar onde pernoitávamos
um dia perdemo-nos por aí
nos porquês da escadaria sem degraus
escorregámos inúteis
à procura de melhor desastre
já não os ouço
e deixámos de ser um

quinta-feira, 5 de Junho de 2008

A Cidade Futura


Nicole Wong - "City Shadows Diptyche"

Habitável brancura
A cidade futura
Onde inventamos a raiz de sermos do chão até ás nuvens
Capazes de um precipício onde cabe inteiro o nosso nome
mar onde melhor se escuta o obscuro silencio em que nos refugiámos
cinzas dos dias de lento amanhecer
os trabalhos mínimos dos olhos levantados na crispação do sonho
uma artéria por onde as crianças desaguam na ternura de suas mães
uma colcha para estender o amor por sobre os campos de mágoa
um pássaro de voo incandescente desperta a febre
num corpo frágil arrancado ao turbilhão do sonho
agora as mãos aproximam-se do rosto ávido de espelhos
um navio flutua na imensidão da noite
estamos sós
nas águas profundas que fazem de mim uma cintilação
e de ti uma faca para esculpir um segredo na leve poeira astral
nome para cortar a escuridão do mundo
e dar o olhar subtilmente azul
à palavra liberdade.

quarta-feira, 4 de Junho de 2008

Pequenos Passos


Alexander Gardner

Abriu-se a porta
para a brevidade da luz de imaginar o mundo
e a demência do sonho
propagou-se pelas letras grandes com que se escreve ausência
na largura da espuma dos dias
reconheço a lua que amadurece a noite
e o braço luminoso da madrugada
no contínuo das horas de branco vestidas
uma veia essencial é o único bem que pudemos carregar
enquanto a vida escorre pela garganta do tempo
preso à derradeira corda
nua Imagem obscura que tornas e partes
espelho que talha na sua imagem
o gesto que alimenta a escrita
não falo de mim
mas da paisagem eterna onde a poesia acontece ferozmente
das janelas miraculosas onde se esperam as palavras que partem
para a alimentação do poema
e o tempo com o seu corpo incandescente
de horas veementes onde se pode encontrar a raiz
de uma a casa habitada pela loucura
não mais que serenidade e musica redimida pelo âmago das coisas
por dentro de tudo num movimento direccionado a tudo
Mas o que existe não é senão um punhal incendiado de abandonos
um salto para escapar ao esmagamento do peito
mãos para a profundidade do sonho
e um rosto imenso ferido pelas ruas em que não passas
chamas-te esperança e nunca te encontrarei.

terça-feira, 3 de Junho de 2008

A deus



Para Ana Aires

Tudo o que não fossem as horas pesadas de te ires embora
para fazeres corpo com as nuvens
e seres chuva cedo demais precipitada...

sábado, 17 de Maio de 2008

Berlindes


"Snooze" - Ronald Nowak

Sabe bem escrever
é como se estivéssemos vivos
e com uma faca de palavras cortássemos a morte pela raiz
numa caligrafia de pontos magnéticos
para devorar os dias e as noites nos intervalos da melancolia
de oriente para ocidente
devemos escancarar as grandes janelas do mar
para que tu chegues como água purificante
e eu seja rio que possa eternamente desaguar
nos teus dedos fios de chuva
gotas de sonho na minha pele
alguma coisa de beijar
e eu fosse despido dos embrulhos da estupidez
num tumulto de profundezas astrais
a poesia como um gelado quente
no chocolate das tardes que nos envolviam
eu subia pela cauda dos cometas
adormecia
respirava no infinito
brilhava na serenidade de ser eu
mergulhava nos muitos sonhos das coisas dignas
que minha mãe me ensinou
perfurava até à carne na pressa de ter um corpo
onde pudesses habitar um nome sem lágrimas
uma vida sem castigo
e via-te passar com os meus sonhos nos teus olhos
na cegueira de abençoar o mundo com um poema
que desse a luz à noite
a treva à madrugada
um precipício à boca
e mais alguns berlindes para os olhos do coração.

domingo, 11 de Maio de 2008

Os Dias Erguidos


Man Ray -"Negative Blonde"

Contrato com o oxigénio
que pulsa por dentro das roseiras bravas
um campo onde o grande maquilhador, o tempo
se esqueceu de matar
os passos para o perturbante silencio
mas antes disso temos de dizer qualquer coisa
para que o baptismo seja mais real
o sangue mais puro
o olhar mais duradouro e sobretudo para que possamos voar
por dentro um do outro
até nos perdermos um dentro do outro
nessa hora lenta e queimada
como as nuvens que transportam o primeiro carinho e outras palavras de berço
veleiros acordados pelo luar do coração
esses pequenos barquinhos nas mãos do mar
recolhem-me á praia
à casa de verde espuma
e estou pronto para me levantar
para ser aniquilado pelo vento que se escreve e multiplica
com uma espiral de ternura por dentro
até que de dentro apareça e fora ressuscite
o que morreu perplexo e que agora brota
num convite à insegurança do belo

Se estas mãos pudessem
Escrever o teu frágil nome
Eu esperaria por essa tempestade
na límpida madrugada dos dias erguidos.

quinta-feira, 8 de Maio de 2008

Fogos


"Nocturne iin Black and Gold" - James Whistler


A interminável janela
papel branco daquilo que está vivo
na larga avenida das horas que passaram
onde o veneno do tempo não nos poderá cegar
o interior dessa marginal
a boca aberta para a grande fome do dizer
e nós falamos esta linguagem
que ninguém ensinou
amamos as margens
dos fogos por atear
aos campos de sermos nós
e as manhãs começam
quando a escuridão atravessa os relógios do fim da tarde
e fluímos para a brancura da palavra

bem-vindos os que desembarcaram na sombra
onde lançámos as nossas frágeis âncoras
e ardem como nós
no coração que governa o pavor do mundo.

Completamos os nossos destinos
Como os dedos solares
no sorriso do acordar da terra
trago-te por baixo de um milagre
que não me pertence
um corpo surpreendente
de olhos proibidos na acendida penumbra.

domingo, 4 de Maio de 2008

Poderia subitamente...


Odilon Redon - Strange Flower, Little Sister of The Poor

A palavra é o espelho
rosto a rosto
a viagem perfeita das línguas essenciais
a ascensão e a queda
no copo do vinho que equilibra a sombra
que por dentro de nós é hora de todos os minutos
adiante a esperança não está naquele lugar profundo e estrutural
apesar de conhecer pela sede
os poços onde vibra a respiração das madrugadas
do animal que se contorce na teia do ideal
realidade que foges sempre sempre
como o réptil assustado pela sombra do morrer do dia
não sou mais que um arabesco errante à procura da palavra nua
o poema cru vivificado pela alegria da luz contagiante
um bilhete postal
uma pedra ao lado do teu nome
veia do poema
luminosa areia
efémera como o gotejar do tempo
eu sou o arco e a flecha desse tempestade que não conheceste
um presságio como uma futura ferida
eu sou a impossibilidade e o perfume da escolha
o tangido alento que a insónia promete
um descanso merecido nos confins do mundo
eu deambulo ente a luz e a luz e por dentro da treva da luz
como um cão ou um gato melancólico
trabalho no deserto a minha existência de papel
poderia enlouquecer subitamente
se não existisses quando fecho os olhos.

quinta-feira, 1 de Maio de 2008

Grito



Aurora - F.W. Murnau

Morre-se muitas vezes e ressuscita-se poucas e cada vez que se mergulha perde-se um bocado de voz e quando de novo tornamos à superfície já não somos os mesmos somos menos temos menos que matar menos que perder e já pudemos acabar no para sempre que é o horror do dia a dia Porque a noite é onde se respira melhor e não precisamos de aturar gente próxima do chão gente sem asas gente de cócoras que não sabe o que é um precipício a esperança acontece de noite a noite expulsa todas as sombras a desordem da dualidade e a contradição a noite é um respirar a água à sua mais pura transparência a água que dá cor aos olhos a água pura onde os barcos se sentem seguros o Homem é uma coisa de nocturno espírito é uma coisa tremenda para lá do concavo infinito das noites mais claras a nossa casa é feita dessas muitas estrelas sem senhorio dessas imensas luzes olhos do gigante a quem não conseguem cegar somos nítidos absolutamente transparentes subitamente somos para sempre somos o dentro daquele lugar primordial que nos imobilizou quando nos olhámos pela primeira vez somos os nossos nomes verdadeiros não aqueles que nos deram por medida no baptistério de uma igreja mas aqueles outros que só de luz se pronunciam aquela luz que torna a noite negra e permite que tudo vejas pelos meus olhos porque para olhar só preciso de ti
um pedaço de infinito
na ponta desta caneta
um grito.

quarta-feira, 23 de Abril de 2008

Não Foste Breve Na Minha Noite



Tom - "Nighthawks at the Dinner"

Não foste breve na minha noite
nem tangível como as faúlhas brancas do poema
por exemplo o abismo onde se escorrega
é o pássaro das coisas intensas como a boca do vento
no olhar vadio da espuma de uma vaga

Sou estrangeiro à vulgar felicidade dos acrobatas
mas torço as palavras ao firmamento
e danço generalizadamente mesmo quando não escrevo
mostro as mãos quotidianas
orquídeas em flor abertas em lençol sobre a terra peixe
ou nuvens sentadas á porta dos instantes
pequenos milagres
assombrações para um corpo
que alguém tem de encontrar na posição correcta
uma janela como um coração
e um muralha de musica para o abrir e fechar sem pensar nisso
nada mudou sobre os arcanos do tempo
na saliva com que se mata o ultimo beijo
eu vejo as ruínas do homem breve e o primeiro gato
que salta sobre os ombros da madrugada
é a única coisa decente que hoje poderá acontecer-nos.

quarta-feira, 16 de Abril de 2008

No Bolso Esquerdo


William Blake - The Ancient Of Days

No bolso esquerdo da camisa
bate um coração encerrado nas diversas magias
do tempo com os seus grandes ganchos
transportam as memórias à flor dos olhos
águas torrenciais que percorrem a pele e esculpem o rosto
com que viajo amarrotado por dias nenhuns
os brutais intervalos lunares da melancolia
amarram-se à corda com que deambulo vagarosamente pelo sonho
mistério estrutural das coisas libertadas
no abrir e fechar das palavras
para que as imagens saltem
como os animais no principio do mundo
Eu agora sou um rio primordial que corre para a sua fonte
sou um corpo de espuma que dorme com a sua vaga
uma cintilação que em silencio espera da noite
a lucidez das flores
como um relógio preciso dentro nas veias das grandes árvores
sou um animal prudente com relâmpagos pelas unhas
tinta para dar cor aos segredos mais infimos
agora brilhamos por dentro
somos um dentro a deitar a luz para fora
um poço que jorra as incomensuráveis
lonjuras da luz roubada ás estrelas
um caminho paralelo cicatrizante e profundo
laranjas loucas com seus gomos repartidos pelos meses
uma chuva com a correcta pronuncia do meu nome
finalmente sei que o meu nome provem das nuvens
e das devastações que por meus olhos se anunciam
na absoluta claridade de um acordar.

segunda-feira, 14 de Abril de 2008

A Noite


Malevitch - Black Square

A noite
A noite crua
A noite com pedaços de lua

Margem


Enquanto alguns ainda dormem
A aranha acende o dia com as suas patas luminosas
O dia luminoso da aranha
O dia claro e distinto
O dia cheio de canetas
Termómetros para a redução da febre dos papeis que ardem
Uma árvore a crescer do oceano
corpos celestes
barcos com a tempestade do seu precipício
As nossas mãos que fazem o trabalho desqualificado dos que pensam
Os dedos mastros que nos unem pontes invisíveis
Pontes assentes nas grandes fundações do sonho
Do voo mais alto, mais puro, mais muito
Muito mais de tudo
inclusive
O cão de olhos claros
que todos os dias encontras nalgumas esquinas da tua memória
sou eu e outros como eu
os que nunca tiveram pátria
que não a palavra margem
sombra que não fosse um abismo apontado á cabeça
uma corda para prender a noite ás lâmpadas do tempo
ao relâmpago dos lugares mais fundos mais inacessíveis
mais cortados pela Primavera que não chega a tempo
de algumas mágoas despejadas
na casa esquecida onde habitámos sentir

sexta-feira, 28 de Março de 2008



Brevemente
É assim que se chama a vida
Um falso lugar ancorado a três poemas
O meu, o teu e o desconhecido

quarta-feira, 26 de Março de 2008

Balada dos Dias Circulares



Indefinidamente
A luz atravessa o teu corpo
tecla de piano

A areia molhada onde deixaste as roupas
Roubadas pela noite
Tecla de piano

Cidade costeira
Grito de espuma
boca dos assombrados
o teu reflexo inseguro
no canto dos pássaros marítimos
Tecla de piano

Ouvido de concha
Rente aos segredos que não nos pertencem
Tecla de piano

Cidadezinha que instantânea te desfazes
Gato oceânico límpido olhar de água
Tecla de

Marfim de mais um dia
Sapatos rotos
Passo de poeta
Tecla

Os minutos suspensos
na vida dos ramos das mais altas árvores
Compreendo agora
todas as palavras encantadas
vento destruído pela ferocidade da musica
um rosto com o seu abismo
uma ponte para o incêndio do silencio
um movimento puro
a loucura aproximando-se da caneta
ou um garfo hipnotizado
para a alimentação das estrelas.


terça-feira, 25 de Março de 2008

Voz


Seremos eternos
Não haverá tempo para
Nem espaço onde
Crescer para a grandeza do lugar mais elevado
Onde se situam as perguntas mais difíceis
Existe apenas uma resposta
Para todas as histórias por contar
Um segredo preliminar antes da fala
Como um lençol de rosas coberto de vermelho pétala
Um sino de igreja que repete a palavra insónia
E um morcego delinquente na lingua do firmamento
Seremos eternos
Teremos um só nome
Murmúrio de água no vazio das horas
Um alfinete cravado na lapela do sonho
ou uma cabeça de homem esquecido onde já não existe dor
Boa noite
Ainda aí estás?
Então vamos continuar
Com uma vida simples
E asas que nos conduzem ao ninho mais quente
Ao mais saboroso pão
Diamantes?
Ou o peixe crepuscular que sobrevoa os cabelos da terra
Este lado do vento norte que se propaga pela luz trémula da palavra
Somos o gesto de abrir a janela que dá para os invisíveis gabinetes da memória
A desobediência está aqui
No ver muito para alem do necessário
No exigir mais pobreza da mão do homem
Mais cor para a paisagem branca das folhas de papel por escrever
Ou um tempo prodigioso atrelado a dois cavalos negros
A nossa bandeira invisível aos olhos
A nossa voz indizível de poesia intacta.

sexta-feira, 21 de Março de 2008

Fantasmas


Colorphul Phantoms - Kazuya Akimoto

Para cada fantasma
um esqueleto de ossos
para cada homem
um lençol de Agosto
para cada tempo
um olhar e um precipício
uma boca de letras grandes
para matar a oxidação do tempo
e nos seus grandes vértices a luz solar dos teus cabelos
gotas de chuva brilhantes
onde se recolhe o sonho
o incêndio do dizer
estas palavras como uma história de explodir
uma tapeçaria de numerosas estrelas
uma branca floração no céu nocturno
pirilampos distantes
múltiplos espaços
onde poderíamos aprender a dançar
a noite é o velho quintal da nossa casa
eu saio pela janela
bato as asas
abro este livro
e ouço a tua voz.

terça-feira, 11 de Março de 2008

Tudo Quanto...


Bacon

O sonho é onde arde esta cama inexplicável de acordar
uma zona de propagação das cores ácidas
brancas e vulneráveis
neste pequeno jardim
eu nunca quis companhia
por pensar que estava a mais
totalmente calafetado com poemas e outras quinquilharias
mas do peito surgiram as aladas estrelas carmim
que esperava desesperadamente
antes de me despedaçar
nas pálpebras dos meses e dos anos
olho a noite
é tão pequena
que caberia nas mais perenes mãos
eu diria que me deitaria á sua porta
como um animal abismado
e tudo quanto me cega
é tudo o que me deixa ver.

Poemas do Contra, Baixo e Guitarra





Apresentação de espectáculo dia 20 de Março -18.30 H

Biblioteca Municipal de Matosinhos




segunda-feira, 10 de Março de 2008


Munch - Burning cigarette


Os dias de chuva dilacerantes
aparentemente perdidos
entre o nosso nome e a musica das palavras
entre dedos e o tempo dual não ouço
a escrita como um lábio púrpura não sinto
uma mordaça como se não falasses
o dizer do explicar sem perceber
um cravo e um gesto transparente
cruzamos um olhar iluminamo-nos
transbordamos
queimamos a dor infinita no sonho de nos ter-mos
não sei escrever a dimensão da ausência
ou os longos promontórios do esquecimento
braços orquestrados onde guardo
os pássaros descartáveis
que me morrem pelos ombros
e eu recordo como eram os melhores amigos
uma lágrima escondida que me deixava vazio
pronto para o recomeço da memória
algum tempo para te dizer olá
um jantar para te agradecer
o perder de ossos que me são tão pesados
apagá-los no bolor de alguma praia
onde pudesse inocente ser alga
ou pepino do mar
ou cego de música e surdo de luz
e de madrugada
florescesse...

domingo, 17 de Fevereiro de 2008

Flutuamos nas Sombras


Barbara kruger

Flutuamos nas sombras
E no sorriso diário que se tolera
O outro feito de sabidas substâncias
Pisca o olho ao desequilíbrio do mundo
Somos gatos selvagens crepusculares
Que não lamentam saber escrever
Somos o sol queimado pelos ninhos
Onde habitam os nossos nomes
Uma flor feita de peixes
Um colarinho de libélulas
Um cometa vivo
como uma devastação de água purificada
Um acidente visível
O rosto e um gato mais
Que adormece as mãos no negócio dos sonhos
Sustentado pela enorme língua sublunar
Um continente perdido
Onde abruptamente nos penetramos
Algures entre a palavra noite
E o deslumbramento do silencio perfeito.

sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008

Todos Esses Instrumentos...


Todos esses instrumentos vermelhos
com que trabalhas o tempo em forma de cão
todos esses passos irremovíveis
com que salpicas o teu destino
servem-me de mira para te apontar este poema
que assinala a minha presença onde quiseres

quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2008

Coração da Noite



"A Noite" por: Bezugly Oleg

O fogo abre-se ao meio
Abre-se num gotejar de espuma dourada
Que queima de néon o coração da noite

segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2008

Sem Titulo




A sua voz macia e meiga poderia custar algumas vidas
mas o que é uma voz terna comparada com umas vidas?

Teria que te dizer onde me escondo
desvendar os meus nocturnos passos
e ver quanto pesa esta carga e o meu sorriso
e talvez entendesses este caminho de nunca chegar
o meu inimigo
uma agulha de tatuar o luar
um livro assassinado por estranhas mãos
e talvez lá chegasses
e entendesses o sofrimento do navio que arde
uma produção de guerra
um nervo
uma garra de corvo cravada no granito
uma gota de sangue na curvatura do sonho
uma colcha de luz para cobrir o infinito
não discutas com o homem que parte
porque viaja no silencio contraditório
a noite primordial com os grandes olhos do acaso
alimento tinta para a boca do poema
Tu a quem dou o tudo do meu nada
Tu com letra grande
Tu de corpo invisível
Tu que não me conheces
nem podes conhecer
porque sou estrangeiro
e não sei correr as cortinas ínfimas
da verdadeira pele e do verdadeiro Sou
mitigado e doloroso
apresento-me aos deuses desleixado
confesso que não me chamo Carlos
nem tenho outro nome
nem sei do meu retrato
nem me retrato no retrato
nem tenho outro mundo
e no fundo
um cisne a fazer de gato
um sapato acrescentado ao pé da evidencia de te ouvir sorrir
e não me deixo abater pela máquina dos lubregues suspiros
nem dou ás procelas os meus preciosos ossos negros
violentos no amparar da carne
e nos minúsculos movimentos do sol
nos meus olhos apagados.

terça-feira, 5 de Fevereiro de 2008

Voz


Dobro-me contra as folhas
coloco-me na posição de mudar o mundo
acolho o profundo azul
que existe nos olhos dos pássaros
e no sangue que a rosas bebem
dos pulsos dos sacrificados
dobro-me contra as folhas
carrego nos botões solares
nas cordas vibrantes do planeta
e ofereço-te uma cidade musical
eu queria uma voz que fosse âncora
e uma arquitectura que fosse o teu nome
um vidro de extremas cores
eu queria um piano e uma citara estrutural
onde pudesse adormecer quase sublime
passar á condição de bicho que sonha
a altivez do teu perfil
a tua mão no sentido da respiração das magnólias
os dedos que alcançam a palpitação das ideias
loucas por pouco tempo
abertas à lucidez do abrir
uma porta para o começo da loucura
se eu quisesse engoliria um asterisco
transformava-me nalguma coisa sensível e cortante
um rosto parecido realmente com o meu
um cálice muito acima das nuvens
onde fossemos só brancura de chuva a cair
e à sua transparência desaparecessemos…

Quem?



Diz-me quem é esta gente surda
que se movimenta por entre os pequenos
espaços das pautas de musica
quem é esta gente de rosto voraz
de dentes limpos e cada vez mais limpos
que rouba a cor ás palavras
e que nos ameaça com chapéus de chuva
molhados de imbecilidade
quem são estes serafins globalizados
com as suas fardazinhas impecavelmente abertas
aos tentáculos que lhes saem pela gola
quem é esta gente que cheira a peixe frito
E ridiculariza a 9ª sinfonia de Mahler?

quinta-feira, 24 de Janeiro de 2008

Mas...


Wojtek Kwiatkowski
Estou aqui
E ouço o bater de asas do meu anjo caído
Canto a água branca e estrutural
Com que beijo a boca da terra
A raiz que sonha a flor
Um poema na algibeira do tempo
A iluminação da primeira noite do mundo
Uma palavra no crepitar da memória
Eu guardo cá dentro a ascensão destas coisas invisíveis
Percorro-me pelas veias e os profundos canais das minhas mãos
Que nada prendem
Que nada sabem reter
Fora das horas mostradas pelos relógios
Sobrevoo os telhados onde procuro o meu verdadeiro nome
Minuciosamente escolho a primeira letra
Que escreveram na pele deste homem
Minha mãe
Um tesouro como o segredo de bagos de romãs
Eu não faço parte
E não sei para onde vou
Mas estou aqui e insisto na fúria mínima da palavra
E na violência dos jardins incendiados pela memória
Onde uma criança nasce de uma rosa altiva
E de um perpétuo desencontro
Um milagre para assustar as órbitas dos olhos cegos
Uma ferocidade translúcida no quebranto do corpo
Um ritmo na carne batida contra os búzios
Eu sou um pedaço de língua bifurcada
Uma caneta anónima
Uma luz trémula na contradição das coisas vivas
Não faço parte
Mas sou.

segunda-feira, 21 de Janeiro de 2008

Carta a Um Amigo


Caravaggio


Hoje dei comigo no teu funeral a falar de vendas de automóveis. Pelo canto do olho, por detrás dos óculos escuros, observei fugazmente uma rapariga que outrora tinha desejado e continuei a falar de automóveis e do terceiro AVC do meu primo Carlos que apesar de tudo continuava a fumar com todo o prazer.
E no entanto, uns metros adiante baixavam a tua urna para a escuridão sufocante da terra. Os teus filhos comovidos choravam para dentro e para fora, com a cabeça baixa de quem fora inexoravelmente derrotado. Eu continuava a falar com o meu interlocutor, que me mostrou a carteira aberta com a listagem de todos os medicamentos que lhe deviam dar caso surgisse o 4.º ataque. E que pensarias tu de tudo isto?
Pouco importa. Ficarias contente por lá estarem os teus amigos e mais alguns hipócritas tragicamente comovidos com a miséria da morte alheia. Quando te vi a semana passada, agrilhoado aquela cama de hospital não pensei que pudesses partir tão breve. Agora é noite e uma luz mais se acendeu ao pé daquelas outras que já havia baptizado com os nomes dos amigos que jamais verei. Eu sei que não precisas de mim para dizer do alto exemplo que foi a tua vida e que agora é só memória. Os teus filhos puros e fortes dos quais recebi a bênção de ser amigo. Sempre foste livre e a tua liberdade nunca prendeu ninguém, nem mesmo os cães que sempre te compreenderam à primeira ao contrário de alguns. Eu hoje agradeço-te profundamente por todas as mudanças que em mim fizeste nascer. Da importância de amar a terra secretamente, do êxtase de ter uma vinha cuidada à tua maneira, arte viva diriam agora alguns. Nunca disseste mal de ninguém e razões para isso não te faltariam concerteza. Perdi aquele abraço forte como uma montanha e aquele sorriso franco e aberto que de presente sempre me ofereceste. Agora carrego também a tua sombra, mais uma a juntar à noite grande das ausências. È uma merda a morte, e tudo o mais que possam dizer são grandes tretas politicas, boas para determinados círculos eleitorais dos quais não sou eleitor.
Não mais verei o brilho tão nítido dos teus olhos castanhos, a limpeza dessas mãos que quebravam os ímpetos da natureza e dela faziam outra natureza. Mas o teu nome está inscrito na perfeição das primaveras vindouras e no vento sem destino que nos beijará eternamente quando por nós chamarem todos os poemas.

segunda-feira, 14 de Janeiro de 2008


Para ver um barco afundar
É só preciso ter um oceano nos olhos
E eu tinha tudo para escapar
Um coração perfeito
Um fato onde cabia
O lugar certo metodicamente alinhado
Onde os naufrágios eram improváveis
Mas o nosso lugar pertence à cidade futura
Onde escreverei o regresso dos teus passos
Num perder de lábios molhados de luar
E uns braços razoavelmente feridos
de te não esquecer.

quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008

Luíz



A Srª. Miséria bateu à tua porta
Calçava sapatos vermelhos
E não pronunciava as vogais com correcção
Estendeu-te um livrinho minúsculo de orações
Mas tu sem coração no lugar certo
Não poderias torcer o nariz à noite
Nem dançar essa valsa obliqua
Sem o teu fantasma
Poderias viver mais mil anos
E nunca enlouquecerias
Nem encontrarias o teu lugar
O teu fato estaria sempre amarrotado
E a braguilha sempre aberta

Uma esmolinha?



quarta-feira, 9 de Janeiro de 2008

Poema Para Se Dizer Em Voz Alta


"Os Bêbados" - José Malhoa

Abre bem a boca

Marca a página e começa
Ilumina-te de vagabundo
Vai para o telhado
Acorda a terra que dorme profundamente
Lança a corda ao tempo
o teu inimigo
Sobe a escada devagar
Acende de cintilações
Os teus olhos verdes de cegueira
Apruma o teu vestido
Veste a pele do menino
Bebe a água do mar que te chega ás mãos
Prova o sal e vê de onde és
Chama por ti próprio
Conhece o teu fantasma
Despe as roupas
Entra devagar nessas águas,
Flutua como se fizesses amor pela primeira vez
Deixa os ossos pairarem no vazio
Fecha as pálpebras
Olha para dentro até que as lágrimas cheguem
E aponta-lhes o dedo
Aos astros e ao grande imprevisto
Arde
E podes agora começar a falar
Identifica-te uma vez que não és só cinzas
Nem pó de estrelas
Deita fora a caricatura
Fala
bate-lhes forte e vigorosamente
Cabeceia-os
Deixa-os doridos
Dormentes com fezes nos fundilhos
Vês como são mais porcos que os porcos?
Foje deles
Incendeia-os

Em tudo o que dorme e respira
Não o sabias?
Ora toma!
Fecha a boca
E vai dormir.

sexta-feira, 21 de Dezembro de 2007

Auto quase retrato


Edward Hopper - "Nighthawks"


A musica que me acolhe ao amanhecer
é a do cheiro luminoso da tua presença
a minha fragilidade escreve-se
na penumbra que anuncia a tua partida
e no terror da ausência infinita
com que o ceifeiro negro nos ameaça a cada dia
a viagem faz-se também aqui
neste sitio onde te recebo
lençol extremo da ternura
que por vezes oculto
amarga vitória de palavras não pronunciadas
eu sou a contradição
e milhares de anos de culpa judaico-cristã
um pecado no lábio mordido pelo beijo
um silencio que espera o anjo
que nunca conheci
porque não sei o nome
que todos os dias digo incorrectamente
os amigos que partiram
e deixaram a casa em ruínas
a cidade queimada pela ausência
ascendo agora por sobre a terra
onde a luz nunca se apaga
habito na sombra estrutural
dos arquivos do tempo que nos resta
reconstruo e destruo os minutos
do que dissemos e fizemos
sou a gota que alimenta
a garganta do homem no deserto
o viajante que adormece na tua cama
e nocturno se esconde no teu corpo.

terça-feira, 18 de Dezembro de 2007

Movimento


O vento levar-nos-á
como no cinema de Kiarostami
pelas margens solares dos trigais
dourados fios dos teus cabelos crepusculares
janela colorida de promessas
sonho e sonho abraço do sonho
as cidades que de ti partem
este poema que partilho
com o cão sem dono e sem liberdade
um profundo sussurro
uma lágrima que condensa no seu núcleo
o berço esquecido
o meu país sem tempo
perdido na solidão das cordas
que amarram os corpos ás pedras frias
estes bolsos rotos
por onde perco as dores a cada passo
que marcam o tempo que não foi
o som que não escutei
eu corro por essas ruas sem sentido
levanto-me das muitas campas onde me sepultei
revejo as minhas vidas passadas
na pele dos peixes vermelhos com que me tocas
e me concedes a verdadeira bênção da inconsciência
vou circunflexo
musical e desassossegado
brevemente existo
na terra por onde já não passas permaneço
mas esse país
conhecer-nos-á pelo nosso nome.







quarta-feira, 14 de Novembro de 2007

Gaveta de Luz


William Blake

Gaveta e luz
que te não abro
para não cegar de vez
Gaveta de luz
onde guardo a brancura
com que pinto este papel a palavras negras
Gaveta de luz
espuma destes dias
mar de púrpura flor
água sonhada
e tantas vezes respirada
Gaveta de luz
nau petrificada
que somente aos corvos pertences
livro do sal e da areia
esta minha terra
litoral de dunas devoradas
vertigem de morder os dedos
o medo visível somente ao entardecer
o silencio lunar do corpo
entregue á mansidão do esquecimento
pétalas de fecharmos os olhos
num precipício perfumado
gaveta de luz
lençol onde termina o sofrimento dos lábios
abertos pela treva oceânica
gaveta de luz
onde nos abraçamos
no momento único
de nos recordarmos até ao fim.



sábado, 10 de Novembro de 2007

Despedida


Yves Klein - "Blue Sponge"

A terra tremia e era doce o teu sorriso
Iluminado com a coragem das mães solitárias
De nenhuns filhos
Olhava de lado o teu perfil
As rugas de solidão cravadas na pele
Alimentavam o rosto preto e branco
Alguns cães desenhados na tua boca
O excesso de beleza dos teus olhos
Fotografados na memória para sobreviver
nesse rio quotidiano que me ilumina
Por dentro sei das súplicas que ele me traz
Os sublinhados nestas frases
Perante a indiferença geral
A nostalgia da justiça que era ter-te

Tenho as minhas razões para ser poeta
Para olhar para as flores e para as pedras
E misturar-lhes mar e algum cuspo
E ser o que não sou fora de mim
Consumidor das luzes que trazem a noite
Um sistema de profundidades várias
Onde as palavras se entregam
Á verdadeira revolução que habita esta casa
Estes passos pouco suaves
Em direcção ao nada
Esta desordem
Estes dedos cheios de utopia
Algum sonho de menino assustado
A agitação que se aproxima
O amanhecer do dia primeiro
onde fecho os olhos para te ver
água
poema
rendição
mel da vida
despedida.

Desafio

A Joana Roque Lino da 8ª Edição (http://oitavaedicao.blogspot.com/, passou-me o repto seguinte:
1-Pegar ao acaso no livro mais próximo, com mais de 161 páginas;
2-Abrir o livro na pág. 161;
3-Na referida página, procurar a quinta frase completa;
4-Transcrever na íntegra para o blogue a frase encontrada;
5-Passar o desafio a cinco novos blogues.

Do meu livro:

“Porque a liberdade era o seu pão (este, como dissemos, não era amargo, mas sobretudo doce: uma alimentação quotidiana inexpressiva).

Pier Paolo Pasolini, in “As Ultimas Palavras De Um Ímpio”

Passo agora o mesmo desafio aos seguintes blogues, caso aproveitem a vaga:

http://contar-te.blogspot.com/
http://lagoreal.blogspot.com/
http://perolasdeouro.blogspot.com/
http://ocheirodailha.blogspot.com/
http://www.jacramos.blogspot.com/

terça-feira, 23 de Outubro de 2007


Martin Ridley


Estas linhas
cozidas no desespero
da onda que leva à praia o rosto do homem afogado
de negro vestido com a saudade nas algibeiras
o tempo não vivido que passou
o numero da lotaria que lhe calhou
bagos de romã, a vida
enforca o sorriso do sonho na corda do amanhecer
a esperança nestes lençóis de linho amorrotados de luz
os teus braços onde acolhes a ternura
destes promontórios onde o poema abraça o mar
águas onde todos os erros são perdoados
este sal coruja da noite
asas silentes
estas mãos que escrevem para ti
os desastres onde mergulhamos a flor que decide o próximo passo
a pétala que cai sem força para permanecer
agora ascendo no silêncio deste quarto onde me perdi
sou uma pedra impossível no cabo do mundo
permaneço imóvel
espero o V de voo
das grandes aves migratórias que atravessam esta paisagem
e não tenho nome para dizer
da beleza do meu coração
quando dança nas tuas mãos.

quarta-feira, 17 de Outubro de 2007

Notável e profundo




O sal que das tuas asas se desprende denuncia o mar onde adormece a chuva que obliqua fere as teclas do piano minimal
berço de corpos desabitados de amor
descansam desertos de energia
os corações estremecem metodicamente ao atravessar do sangue
a presa e o caçador abraçam-se na derradeira paixão que antecede a morte
as mãos dadas ao suor que destrói para sempre
as ervas daninhas do passado na transfiguração da luz
um presente
uma fuga dolorosa
uma crueldade mimética
absurda oração das mãos que se não dão
um piano neste quarto gradeado
um tumulto nostálgico como um virar de página
o tempo que escorre e afoga o naufrago gota a gota.

Levantou-se
relembrou todas as letras
que dos poemas sabia existirem
e a golpes de azul
desapareceu por entre alquimias
de fumos de cigarros

Notável e Profundo
são as únicas palavras inscritas na sua lápide.


sábado, 13 de Outubro de 2007



"Nude in Silence" - Jacqui Faye Michel

Não tão silencioso
que não gostasses que te ouvissem
não tão inteiro
que não preferisses que te partissem
não tão ferido
que não quisesses que te salvassem
não tão escuro
que os teus olhos não cegassem
não tão intenso
que não temesses pela tua segurança
não tão ridículo
que não te permitissem somente a verdade
não tão puro
que não pudesses do nojo extrair a beleza
não tão cortante
que pudessem as facas beijar a tua língua
e por fim soubesses administrar o teu silêncio.

domingo, 7 de Outubro de 2007

Sombriamente iluminados


Dali - a persistencia da Memória


Sombriamente iluminados
estilhaçados de luz
com o corpo por acabar
cheios de fantasmas
evitávamos o ar das cidades contaminadas
e buscávamos o nosso suor
e a nossa sede no silencio dos madrigais
onde deambulávamos cheios de letras indizíveis
e dávamos as mãos que não eram nossas
àqueles a quem pertencíamos

Sombriamente iluminados
estilhaçados de luz
com o corpo por acabar
caminhávamos nos telhados surrealistas e
levantávamos voo
relembrávamos estórias
pássaros que passam
que não precisam morrer nem saber mapas
o nosso voo metodicamente
sulcava cada gesto
cada abraço
cada milagre que entre nós
foi o de lágrimas não choradas
porque éramos felizes

Sombriamente iluminados
estilhaçados de luz
com o corpo por acabar
crianças fomos
e do mar fizemos
unicamente a paisagem dos nossos olhos
seara que nenhum desastre podia arrancar
eu sabia as pequenas curvas de cada duna
o teu corpo de água que fluía para o meu centro
eu comia desse alimento e crescia
olhava o sonho antes da tempestade
queimávamos o tempo com pequenas faúlhas
fechávamos os olhos e adormecíamos.
sombriamente iluminados
estilhaçados de luz
com o corpo por acabar.






terça-feira, 25 de Setembro de 2007

Não tenho....



Bill Brandt

Não tenho casa sem ser a dos teus cabelos devolvidos ás minhas mãos
Não tenho olhos que não sejam a cegueira dos teus beijos
Não tenho sombra que não seja a luz que diariamente me forneces
Não tenho dores que não sejam as do medo de te não mais encontrar
Não me tenho a mim porque sou teu e nesse perder me achei
Não tenho boca para dizer as palavras que merecias ouvir
E triste estou por me faltar talento e inspiração.



segunda-feira, 17 de Setembro de 2007

Balada Para Uma Ausência


Jack Spencer


De repente tudo parece azul
de um azul profundo
estelar inacessível

desde que nas minhas veias
corra o sangue de ferir
eu digo
este lugar não é para ti
melhor ficarás nos mundos intermédios
onde a terra não treme
onde não precisas da perfeição do exigir
mais uma noite solitária
é o que de mais acolhedor posso oferecer
estas nuvens que passam
restos do teu cabelo
são o algodão e a água que corre
e que te recorda da melhor maneira

O Outono chegou em pleno Verão
plátanos e bétulas
despem-se com ternura e suavidade
preparam as raízes para o silêncio
e sinto o voo das suas folhas
conheço como o elas o chão do desamparo.




quinta-feira, 13 de Setembro de 2007



Soa o canto do rouxinol negro
como a bala que fala
queimando de morte o corpo dilacerado
pelo beijo da claridade do ultimo dia
o solo etéreo na boca que não diz
o interprete da minha noite
o rouxinol negro tatuado nesta pele
pedra silente que atravessa o espaço
carrilhão de desenganos
depois o guardião da noite sentenciou-me
e eu fugi através dos ciprestes
que guardam o tumultuoso rio
eu fugi e mergulhei
nas muitas águas dos futuros sonhos
onde habitaremos os nossos corpos regressados do silêncio
eu fugi vertendo a dor nos passos que ardem os caminhos

Devolve-me ás estrelas
porque o amor
é o único milagre digno desse nome

segunda-feira, 27 de Agosto de 2007

Uma Gota de Sangue


Mark Ryden

Escrever
é colocar uma gota de sangue
no sangue dos outros e envenená-lo
as palavras projectam-se infectas
saem das mãos do poeta
são jactos primordiais que atingem os outros
e assim o poeta como o perfumista
difunde-se e confunde-se nos odores dos outros
deixa a sua magnólia
e enxerta-se em tudo o que é planta de receber enxerto
o Poeta é um jardineiro
uma ave carregada de pólenes
um peixe pescador encantador de ventos
que sabe congelar o tempo
tempo que parou naquela carta que não enviaste
porque não me conhecias
e agora é tarde
é tão tarde que me perdi
de tanto passar por estas ruelas difíceis
que conhecem o meu nome pétreo
porque o meu nome caiu no chão
e quebrou o derradeiro sonhar do sonho
o poema despedaçado
que goteja venenoso nas palavras possíveis de escrever
porque há palavras que ainda não existem
que são como animais futuros
que habitam a boca dos poemas por escrever
eu digo e sonho
no dizer de todas as minhas vozes de homem multiplicado
eu digo que tal como a metáfora
embala o poema espreguiçando-se em todo o seu amplexo
também o Poeta se prepara para dormir
depois de derrubado pelo seu poema
Poeta vazio de palavras
que volta a ser humano
a alma contida dentro de um rebuçado
um corpo dentro das cidades queimadas
pela distancia de não haver partida
só saudade absoluta
memória lembrança das viagens por cumprir
no teu corpo perfumado pelo sarro marinho
a luz da luz que tudo escurece
este quarto donde acabas de sair com um sorriso infantil
que convoca as lágrimas que chorarei quando te perder.




terça-feira, 21 de Agosto de 2007

Poema Directo




Ainda que os teus dedos
não estejam mais ao alcance dos meus
ainda que eu nunca te tivesse dito
que os teus olhos
eram as verdes feridas
que me iluminavam todos os minutos
ainda que só agora o diga
ainda assim abro com terno desespero
esta rua de poesia e saúdo-te
mulher da minha vida
nesta rua em que todas as casas tem o teu nome
e todas as pessoas te conhecem em demasia
para te puderem perder como eu te perdi
ainda que este papel
não seja o lugar
onde sublime possas repousar
eu digo que se houvesse de louvar-te
buscar-te –ia no vento porque sou nada
e porque tudo é pouco
para abraçar o impossível
e esconder as minhas dores.

segunda-feira, 20 de Agosto de 2007


Josef Koudelka

Guardo-te no bolso

dobro em quatro este papel

com as palavras que me saltam da pele

as notas dos dedos de um pianista

guardo-te no bolso

posso mesmo dizer

que tenho um coração no bolso

e um buraco no coração

sexta-feira, 17 de Agosto de 2007

Primeiro Dia



Deveria cortar as mãos
para não desenhar as palavras erradas
o perigo é esse
esquecer-me de ti
numa destas noites mal dormidas
deixar de tropeçar na presença da tua ausência
e ser acusado do crime de silenciar a tua memória
o poema que escrevo desde o primeiro dia.

terça-feira, 14 de Agosto de 2007


Klimt

Vejo que passas como um fragmento luminoso
na tinta desta caneta incandescente
nesta letra mal acabada
vejo que passas por mim
que sou A de árvore
S de sombra que se projecta na parede negra de xisto
sinto que passas
e quebras pelo centro a indiferença destes dias
cheios por esta profissão iníqua de ângulos mortos
vejo que passas silenciosamente
como num filme de Antoinioni
desarrumada de luz
e de pulseiras de cristais translúcidos
a espuma dos teus passos
é o salário bastante para os meus olhos operários
a cintilação da tua voz
água para a minha sede de árvore
e não conheço outra verdade
que me faça ser esta raiz.

quarta-feira, 8 de Agosto de 2007


Dora Maar por Man Ray


Cruzo as mãos
fecho os olhos com ferocidade
procuro a fonte das palavras não pronunciadas
é ela a minha boca
a minha água no deserto dos surdos
boca que alimenta outra boca
um pensamento feroz
um sentimento arrebatador na minha cabeça coração
e conspiro no verde madrigal que foi a minha infância
recordo a textura das árvores
onde sonhei pela primeira vez para escapar à morte
e estou nas folhas perenes dessas árvores
feitas de vento subtil
que soprava pelos ramos dos meus dias iniciais como um milagre
eu escrevia os primeiros poemas
relembrava que te iria encontrar nas palavras
no amor que nunca ousei dizer
porque o amplexo do amor não cabe nas palavras
mas eu escrevia por dentro
como a aranha que tece uma teia para os seus filhos
eu escrevia a minha casa na noite habitada pelo teu nome.


segunda-feira, 6 de Agosto de 2007

Gena



Mais algumas palavras
antes que essa lágrima
desapareça no anonimato do chão
mais algumas palavras
ou uma arma em punho
um estilhaço de tinta fresca
a mão que assina este papel…

B.I.


Dinis Albano Carneiro Gonçalves

Deixaste que o silêncio
invadisse esse bilhete de identidade
até apagar da fotografia todos os teus sonhos
abriste o coração a todos os desastres
consegues agora ver o lugar certo do teu caber…

sexta-feira, 3 de Agosto de 2007

A Casa


Vincent

Atei os meus lábios ao teu destino
começam assim certas histórias a duas bocas
alguém mergulha as mãos na água e constrói uma casa
sonha e estremece ao som delicado das ondas
dos profundos lugares das paisagens marítimas
começam assim certas histórias a duas bocas
os lábios relembram, alimentam-se
apavoram-se no medo profundo do amor
e os corpos habitam-se de energias luminosas
as horas passam e nada termina
o coração é dono do tempo e dos compassos irracionais das línguas
que dizem palavras que não chegam para alimentar a ave que nos recebe a nós
e nós estamos unidos na emoção primordial
dos primeiros dias da criação do mundo
e colocamos tijolos e madeiras várias
sangue e saliva e lágrimas
e construímos a nossa casa a duas bocas.

quarta-feira, 1 de Agosto de 2007

Tango


Cristina Bergoglio

Aquela mágoa não era dor de ouvidos que escutaram um “não te amo mais”
Aquela mágoa estendia-se ao comprido por debaixo da língua dos mártires que pronunciaram o teu nome que já não era amor no coração dos desesperados
É terrível o tempo de não saber voltar à música de dois corações livremente amordaçados um ao outro, dois de um, um de dois.


quinta-feira, 26 de Julho de 2007

Notas para não esquecer


fotografia de Quark

Rever os modos de me aproximar à morte
deixar-me mais tempo nos teus braços
ser a ferida que se oferece ao teu corpo
congelar-me nos teus olhos e esperar que ardas.

terça-feira, 24 de Julho de 2007



Deixo a cadeira
onde se sentava a imagem pura de minha mãe
parto sem vontade de partir
as fotografias amontoadas pelo chão…
a cópia debotada de um quadro de Vermeer
“Rapariga Com Brinco De Pérola”

Confusas são as coisas da terra
Para as mãos simples do pescador
Que soletra baixinho
Rapariga com…
brinco de água
minha mãe de água
a ti regresso silencioso e liquido
nas tintas dos quadros de Vermeer
nesta praia repleta de astros
que são as minhas mãos quebradas
pela distância de te não pertencer.

segunda-feira, 23 de Julho de 2007

5 livros importantes...



Respondendo ao desafio lançado pela JLR, aqui ficam;

"Os Maias" de Eça de Queiroz (Obrigado Professor Monteiro)
"Cem Anos de Solidão" de Gabriel Garcia Marquez
"Siddhartha" de Hermann Hesse
"Albas" de Sebastião Alba
"Obra quase Incompleta" de Alberto Pimenta
"

quarta-feira, 18 de Julho de 2007

A tua mão suavemente...


Jeanne - Amadeo Modigliani

Deixar Correr as lágrimas
percorrer-nos o rosto com enorme gentileza
é escrever a tinta invisível a visível liquidez das palavras claras
o céu é como se chama o lugar perdido que reflecte a tua pura presença
a delicadeza do teu gesto
a tua mão no meu cabelo suavemente
é o segredo que inclina a água onde navegamos
e não tenho palavras nem mais segredos
para dizer á raiz que o meu corpo é o teu corpo
e a minha sede é o rio por onde correm essas lágrimas
tal é a flor da flor
o gesto terno de um olhar
A erva mais alta no campo mais verde
o principio das coisas
o exemplo estrutural da criação
é este o caminho que percorro
um caminho de milagres e poços negros
e trago o teu gesto na profundidade ampla do meu coração
que bate aqui e ali como a vai vem das vagas nocturnas
sem nenhum agenciamento prévio
inventamos aquela cola indestrutível
que une as coisas permanentes
a estrutura milagrosa da teia de aranha
ou a voz dos plátanos beijados pelo vento norte.
por isso peço o impossível
que te levantes mais uma vez
e na delicadeza do teu gesto
eu sinta ainda a tua mão no meu cabelo suavemente.

segunda-feira, 16 de Julho de 2007

O que perdi
diz-me o que perdi
tudo o que tinha sem suspeitar
e perdeste sempre?
sim, perdi sempre.

quinta-feira, 12 de Julho de 2007



A árvore vermelha por Piet Mondrian

A estrada coberta de neve
a árvore coberta de angustia
curva-se como eu perante o rigor deste Inverno
mas subitamente estou vivo e ardo, sim estou vivo
e olho-te árvore que não vens nos livros
olho-te só eu e compreendo-te só eu.

quarta-feira, 11 de Julho de 2007

Geometria dos Possíveis


Podes ser o invisível
Dos objectos inverosímeis
Podes ser a palavra em Dreyer
Que abre os olhos aos vendados
Fulmina de fé os incrédulos
Carrega de luto as mulheres de branco

Ilumina-me
Faz-te luz no meu abismo
Fascina-me e transfigura-me.

Pena capital

Pena capital para os humanistas
Pena capital para os sem partido
Pena capital para os que não têm trabalho
Pena capital para os "inadequados"
Pena capital para os incorruptos
Pena capital para os que sentem
Pena capital para os homens livres
Mas primeiro
coração algemado
coração encordoado
coração esmagado
coração rasgado
agora sim;
Pena capital

terça-feira, 10 de Julho de 2007




fotografia: Rafael Borges


Sou o vento
que no dia 3 de Julho pelas 11 horas e 47 minutos
levou os teus cabelos a caprichosamente cobrirem o teu rosto
nesse preciso momento lembraste-te de mim…

Raíz

Vou pela estrada recortada a castanheiros
a estrada molhada por este dia cinza interior
vou com o estrondo das ondas do mar dentro de mim
vou até onde termina o caminho
até onde não existe mais luz esperarei
para te pertencer
Raíz.

segunda-feira, 9 de Julho de 2007



Sou livre!
Como?
Sou Livre!
Você é doido
Afirmou o meritíssimo juiz perante o homem condenado a 25 anos de prisão.
Já reparaste no canto dos pintassilgos em Abril?
Sabes o que são pintassilgos?
E as Variações Goldberg conheces?
E a ti próprio conheces?

domingo, 8 de Julho de 2007


Caspar David Friedrich - Monk By The Sea

Exercito a caneta
Como o operário o berbequim na parede dura
Exercito-me para o nada
Sou um bruto que aprecia as flores e os canários verdes
Arregaço as mangas
E olho-me no espelho branco de uma folha de papel
Uma árvore a minha infância
A minha pátria de palavras
A minha pátria cega e perturbada.

sábado, 7 de Julho de 2007

Direitos Humanos


Edvard Munch




O amor negado
O amor soterrado
O amor cuspido
O amor lambido
O amor veneno
O amor cão
O amor erro
O amor atraiçoado
O amor estilhaçado
O amor nado morto
O amor verdade

Amo-te amor
Amo-te… eu
cão.

quarta-feira, 4 de Julho de 2007



Nenhuma palavra para esconder a morte nos teus olhos
Nenhum milagre possível sobre a água dura gelada
Nenhum líquido terrestre sustentará o teu dorido corpo
Nenhum subterfúgio para evitar o grito infame

Habitarás o interior do meu coração nocturno
Todos os dias que me faltam para chegar até ti.


Sou vários homens
comprimidos num só homem

Bebo para morrer de sede

quarta-feira, 27 de Junho de 2007

As mães

As mães estão nas lágrimas azuis que os filhos secretamente choram por não lhes puderem valer como elas sempre fizeram por eles, por isso a divida é eterna e impagável. Os filhos choram o sofrimento das mães mas o sofrimento das mães é desumano e incomensuravelmente maior por não puderem mais cuidar deles. Os filhos são todo o sentido da vida das mães. As mães criam-se em redor dos filhos e são as muitas palavras que eles falam, estão em todas as sílabas das suas metáforas. As mães sãos as coisas mais belas que os filhos carregam e que depois são oferecidas a outras mulheres mães sem eles saberem, sem se aperceberem que são um presente da primeira mãe para a mãe mais nova. A mãe transmite-se de filho em filho, da primeira mãe até à mãe derradeira. Os anjos são feitos da carne das mães, mesmo daquelas menos subtis. E os filhos choram outra vez como quando nasceram quando as mães morrem. Chamam por elas em gritos primordiais, sanguinários. Choram porque perderam os olhos da cara que os ensinaram a encontrar o amor e a respiração com que diariamente acordam. Os filhos sem mães tem que aprender outra vez a respirar o ar que todas as manhãs ascende dos pulmões ao seu coração magoado. Assim é há muitos anos sem que os filhos se apercebam. A mãe olha o filho pela última vez quando o amor e a dor se fundem na matéria sensacional das estrelas num abraço superiormente profundo, é a primeira vez que alguns filhos navegam neste mar. O filho recusa partilhar a dor da mãe, não consegue ver nada além da brutal desumanidade, a total ausência de Deus naquela situação esmagadora. Mas a mãe tem os olhos abertos e abre com as suas lágrimas os olhos do filho. O filho não sabe porque chora e não nota que as suas lágrimas são azuis pela primeira e ultima vez. O filho pensa que a vida continua mas por vezes quando acorda e se vê ao espelho a sua pele contem reflexos de azul, e há dias sem nuvens em que ele consegue finalmente compreender a cor do céu, a cor de todas as mães.

Nascer

Hoje e aqui
sair de mim
entrar por ti
SER