sábado, 17 de maio de 2008

Berlindes


"Snooze" - Ronald Nowak

Sabe bem escrever
é como se estivéssemos vivos
e com uma faca de palavras cortássemos a morte pela raiz
numa caligrafia de pontos magnéticos
para devorar os dias e as noites nos intervalos da melancolia
de oriente para ocidente
devemos escancarar as grandes janelas do mar
para que tu chegues como água purificante
e eu seja rio que possa eternamente desaguar
nos teus dedos fios de chuva
gotas de sonho na minha pele
alguma coisa de beijar
e eu fosse despido dos embrulhos da estupidez
num tumulto de profundezas astrais
a poesia como um gelado quente
no chocolate das tardes que nos envolviam
eu subia pela cauda dos cometas
adormecia
respirava no infinito
brilhava na serenidade de ser eu
mergulhava nos muitos sonhos das coisas dignas
que minha mãe me ensinou
perfurava até à carne na pressa de ter um corpo
onde pudesses habitar um nome sem lágrimas
uma vida sem castigo
e via-te passar com os meus sonhos nos teus olhos
na cegueira de abençoar o mundo com um poema
que desse a luz à noite
a treva à madrugada
um precipício à boca
e mais alguns berlindes para os olhos do coração.

15 comentários:

JRL disse...

sabe bem ler-te
é como se estivéssemos vivos
;)
uma vida sem castigo
na cegueira de abençoar o mundo com um poema...

Manuela Viola disse...

Lindissimo este poema.

Ad astra disse...

rio que desagua palavras de sentir

Um beijo

un dress disse...

essa espécie de cegueira que nos move

cegos de palavras-luz




~

~pi disse...

onde pudesses habitar um nome sem lágrimas:

nome quase

inesperado ~

Sónia Pessoa disse...

parabéns... muitos parabéns. acho que digo tudo o que há para dizer... parabéns.

isabel mendes ferreira disse...

"onde pudesses habitar um nome sem lágrimas"....

.




excelente des.construção do dizer amor na pela do coração.



.



__________________abraço. cordial.

Carol disse...

Lindo...

Obrigada pela visita ao Poetiz@r.

Perla disse...

Concordo... sabe bem escrever.
Sabe tão bem!...

Dalaila disse...

letras que quem têm sangue, veias e vivem.

Vieira Calado disse...

Achei o eu poema muito bem conseguido e interessante.
um abraço

TCHI de Tchivinguiro disse...

"esferas" escritas com alma.

beijinhos.

Auréola Branca disse...

Puxa, antes que minha spalavras o elogiam, quero agradecer pela visita e o seu olhar nos meus contos.

Mas, voltando... Talvez alguns "fios de chuva" tenham a sensibilidade indescritível de um olhar que não "adormece" em ti.

Abraços...

Joanne disse...

Há muito que não lia nada tão bom. Está perfeito e divido contigo os mesmos sentimentos que vem da escrita. O mundo inteiro que passa das mãos para o papel. Escrever é sentir-me completa e ver o mundo todo à minha maneira nos olhos de outras pessoas que tmabém são "eu". Parabens.

Anónimo disse...

Bebi toda a essência das suas palavras. Obrigada.