quinta-feira, 1 de maio de 2008

Grito



Aurora - F.W. Murnau

Morre-se muitas vezes e ressuscita-se poucas e cada vez que se mergulha perde-se um bocado de voz e quando de novo tornamos à superfície já não somos os mesmos somos menos temos menos que matar menos que perder e já pudemos acabar no para sempre que é o horror do dia a dia Porque a noite é onde se respira melhor e não precisamos de aturar gente próxima do chão gente sem asas gente de cócoras que não sabe o que é um precipício a esperança acontece de noite a noite expulsa todas as sombras a desordem da dualidade e a contradição a noite é um respirar a água à sua mais pura transparência a água que dá cor aos olhos a água pura onde os barcos se sentem seguros o Homem é uma coisa de nocturno espírito é uma coisa tremenda para lá do concavo infinito das noites mais claras a nossa casa é feita dessas muitas estrelas sem senhorio dessas imensas luzes olhos do gigante a quem não conseguem cegar somos nítidos absolutamente transparentes subitamente somos para sempre somos o dentro daquele lugar primordial que nos imobilizou quando nos olhámos pela primeira vez somos os nossos nomes verdadeiros não aqueles que nos deram por medida no baptistério de uma igreja mas aqueles outros que só de luz se pronunciam aquela luz que torna a noite negra e permite que tudo vejas pelos meus olhos porque para olhar só preciso de ti
um pedaço de infinito
na ponta desta caneta
um grito.

3 comentários:

~pi disse...

sim

repito:

a vertica

l

i

d

a

d

e


é um

ve ne no





~

JRL disse...

nesta tua casa respiramos melhor ;). um beijo grande.

Ad astra disse...

E como eu concordo!!!


Lindo mesmo!