domingo, 4 de maio de 2008

Poderia subitamente...


Odilon Redon - Strange Flower, Little Sister of The Poor

A palavra é o espelho
rosto a rosto
a viagem perfeita das línguas essenciais
a ascensão e a queda
no copo do vinho que equilibra a sombra
que por dentro de nós é hora de todos os minutos
adiante a esperança não está naquele lugar profundo e estrutural
apesar de conhecer pela sede
os poços onde vibra a respiração das madrugadas
do animal que se contorce na teia do ideal
realidade que foges sempre sempre
como o réptil assustado pela sombra do morrer do dia
não sou mais que um arabesco errante à procura da palavra nua
o poema cru vivificado pela alegria da luz contagiante
um bilhete postal
uma pedra ao lado do teu nome
veia do poema
luminosa areia
efémera como o gotejar do tempo
eu sou o arco e a flecha desse tempestade que não conheceste
um presságio como uma futura ferida
eu sou a impossibilidade e o perfume da escolha
o tangido alento que a insónia promete
um descanso merecido nos confins do mundo
eu deambulo ente a luz e a luz e por dentro da treva da luz
como um cão ou um gato melancólico
trabalho no deserto a minha existência de papel
poderia enlouquecer subitamente
se não existisses quando fecho os olhos.

12 comentários:

TCHI de Tchivinguiro disse...

palavras reflexo


semblante a semblante


missiva impressa

.
.
.

beijinhos

JRL disse...

essa ténue fronteira entre um lado e o outro... um grande beijinho.

Graça Pires disse...

O rosto. A sombra. A palavra nua.
As contradições. Um belo poema.
Um abraço.

Ana Paula Afonso disse...

ser a impossibilidade de quem só existe quando fechamos os olhos...

hfm disse...

Gostei muito de ler.

Vieira Calado disse...

Belo poema!
Ainda por cima, encontro-me nele, porque há vezes escrevo dentro do género.
Um abraço.

~pi disse...

palavra jangada

nua

perfeita palavra ~

alice disse...

"eu sou uma impossibilidade e um perfume", "eu deambulo entre a luz e por dentro da treva da luz como um cão". cito-o porque é sublime!

rosasiventos disse...

the book of life

nuvem disse...

Sem palavras.

Tens um mimo lá na minha nuvem. É pouco para te mostrar o quanto aprecio a tua escrita, mas é de coração.

Beijo

Ad astra disse...

assim mesmo...
quando fechamos os olhos...

Auréola Branca disse...

Tu brincas com palavras, fazendo um turbilhão de pensamentos virem à tona.
Gosto disso.