quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Mas...


Wojtek Kwiatkowski
Estou aqui
E ouço o bater de asas do meu anjo caído
Canto a água branca e estrutural
Com que beijo a boca da terra
A raiz que sonha a flor
Um poema na algibeira do tempo
A iluminação da primeira noite do mundo
Uma palavra no crepitar da memória
Eu guardo cá dentro a ascensão destas coisas invisíveis
Percorro-me pelas veias e os profundos canais das minhas mãos
Que nada prendem
Que nada sabem reter
Fora das horas mostradas pelos relógios
Sobrevoo os telhados onde procuro o meu verdadeiro nome
Minuciosamente escolho a primeira letra
Que escreveram na pele deste homem
Minha mãe
Um tesouro como o segredo de bagos de romãs
Eu não faço parte
E não sei para onde vou
Mas estou aqui e insisto na fúria mínima da palavra
E na violência dos jardins incendiados pela memória
Onde uma criança nasce de uma rosa altiva
E de um perpétuo desencontro
Um milagre para assustar as órbitas dos olhos cegos
Uma ferocidade translúcida no quebranto do corpo
Um ritmo na carne batida contra os búzios
Eu sou um pedaço de língua bifurcada
Uma caneta anónima
Uma luz trémula na contradição das coisas vivas
Não faço parte
Mas sou.

11 comentários:

Claudia Sousa Dias disse...

Intenso poderoso.

Como a imagem que lhe serve de legenda.

CSD

Maria P. disse...

Cheguou o fim do dia, regresso a Casa e encontro palavras simples e simpáticas, sigo o trilho e encontro este espaço magnífico...que belo fim de tarde.
Obrigada.

Um abraço*

Luís Galego disse...

agradeço a aterragem no meu blog, porque venho aqui encontrar palavras que me seduzem...

Tchivinguiro: onde nasci. disse...

Mãos que sentem...

Belíssimo.

Beijinho.

Maria disse...

Hoje não tenho palavras para te comentar....
Mesmo que não se faça parte, é-se...

Beijo

JRL disse...

E estás aqui, carlos... como estás! Um beijo ;)

Maria Laura disse...

Obrigada pela visita que me fez ficar a conhecer a extraordinária qualidade da tua escrita. Voltarei.

Manuela Viola disse...

Continuo a gostar muito de passar por aqui e ler as tuas sempre belas palavras, Bjo.

Ad astra disse...

És, és !

Um beijo

Catarino disse...

Gostei deste estilo livre e dos motes que deixas para cada passagem...
De frases longas para apenas uma palvra...
Interessante...

nuvem disse...

Fantástico.

Beijo