segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Carta a Um Amigo


Caravaggio


Hoje dei comigo no teu funeral a falar de vendas de automóveis. Pelo canto do olho, por detrás dos óculos escuros, observei fugazmente uma rapariga que outrora tinha desejado e continuei a falar de automóveis e do terceiro AVC do meu primo Carlos que apesar de tudo continuava a fumar com todo o prazer.
E no entanto, uns metros adiante baixavam a tua urna para a escuridão sufocante da terra. Os teus filhos comovidos choravam para dentro e para fora, com a cabeça baixa de quem fora inexoravelmente derrotado. Eu continuava a falar com o meu interlocutor, que me mostrou a carteira aberta com a listagem de todos os medicamentos que lhe deviam dar caso surgisse o 4.º ataque. E que pensarias tu de tudo isto?
Pouco importa. Ficarias contente por lá estarem os teus amigos e mais alguns hipócritas tragicamente comovidos com a miséria da morte alheia. Quando te vi a semana passada, agrilhoado aquela cama de hospital não pensei que pudesses partir tão breve. Agora é noite e uma luz mais se acendeu ao pé daquelas outras que já havia baptizado com os nomes dos amigos que jamais verei. Eu sei que não precisas de mim para dizer do alto exemplo que foi a tua vida e que agora é só memória. Os teus filhos puros e fortes dos quais recebi a bênção de ser amigo. Sempre foste livre e a tua liberdade nunca prendeu ninguém, nem mesmo os cães que sempre te compreenderam à primeira ao contrário de alguns. Eu hoje agradeço-te profundamente por todas as mudanças que em mim fizeste nascer. Da importância de amar a terra secretamente, do êxtase de ter uma vinha cuidada à tua maneira, arte viva diriam agora alguns. Nunca disseste mal de ninguém e razões para isso não te faltariam concerteza. Perdi aquele abraço forte como uma montanha e aquele sorriso franco e aberto que de presente sempre me ofereceste. Agora carrego também a tua sombra, mais uma a juntar à noite grande das ausências. È uma merda a morte, e tudo o mais que possam dizer são grandes tretas politicas, boas para determinados círculos eleitorais dos quais não sou eleitor.
Não mais verei o brilho tão nítido dos teus olhos castanhos, a limpeza dessas mãos que quebravam os ímpetos da natureza e dela faziam outra natureza. Mas o teu nome está inscrito na perfeição das primaveras vindouras e no vento sem destino que nos beijará eternamente quando por nós chamarem todos os poemas.

12 comentários:

Maria disse...

Fiquei arrepiada com este texto.
Demasiado arrepiada......
Pleno de lucidez e de ternura....
Saio devagarinho, deixo-te um abraço

Ad astra disse...

sentindo cada palavra, deixo-te
um beijo

Tchivinguiro: onde nasci. disse...

Retenho:

«Sempre foste livre e a tua liberdade nunca prendeu ninguém...».

«Perdi aquele abraço forte como uma montanha e aquele sorriso franco e aberto que de presente sempre me ofereceste».

«Mas o teu nome está inscrito na perfeição das primaveras vindouras e no vento sem destino que nos beijará eternamente quando por nós chamarem todos os poemas».


Beijinhos.

JRL disse...

o nome inscrito na perfeição das primaveras e no vento sem destino... belo texto, carlos. um beijo grande.

Claudia Sousa Dias disse...

Gostei do texto, sentidop ao milítetro, ou melhor em cada fonema.

Um abraço amigo.


CSD

laura disse...

que bonito... só posso dizer isto.

Ka disse...

Lindíssima esta carta!
Pela escrita mas ainda mais pelo sentir que nela transparece ...

Cheguei aqui via Casa de Maio e gostei :)
Tenciono voltar, posso?

Carlos Ramos disse...

Claro que sim, esta casa é de liberdade...

Catarino disse...

Demasiado pessoal, para comentar, mas arrisco-me a dar duas achegas, muito breves:
1ª-A morte, não é o fim, é uma passagem... (não é política, é a Verdade)
2ª-O brilho nítido dos seus olhos castanhos, a limpeza das mãos que quebravam os ímpetos da natureza e dela faziam outra natureza. Tu (acho que te posso tratar assim???) continuá-los-ás a ver como até aqui, porque essas imagens predurarão eternamente em ti, na tua cabeça e sobretudo no teu coração...
Para cabar, deixo uma frase que ouvia há tempos num filme e, que agora, me parece apropriada: "Nós existimos, não porque nos lembramos de alguém, mas porque alguém pensa em nós..." Ele continuará a existir sempre, porque há alguém que pensa sempre nele...
Eu sei que é um texto pessoal, e desculpa este abuso...

Catarino disse...

Demasiado pessoal, para comentar, mas arrisco-me a dar duas achegas, muito breves:
1ª-A morte, não é o fim, é uma passagem... (não é política, é a Verdade)
2ª-O brilho nítido dos seus olhos castanhos, a limpeza das mãos que quebravam os ímpetos da natureza e dela faziam outra natureza. Tu (acho que te posso tratar assim???) continuá-los-ás a ver como até aqui, porque essas imagens predurarão eternamente em ti, na tua cabeça e sobretudo no teu coração...
Para cabar, deixo uma frase que ouvia há tempos num filme e, que agora, me parece apropriada: "Nós existimos, não porque nos lembramos de alguém, mas porque alguém pensa em nós..." Ele continuará a existir sempre, porque há alguém que pensa sempre nele...
Eu sei que é um texto pessoal, e desculpa este abuso...

M. disse...

Perdoa-me a invasão, tens de perdoar mesmo. Vim pela curiosidade e porque o tempo hoje me concede esse privilégio. Adoro cartas. Estas cartas. Este tipo de cartas tocantes e sentidas em que falamos a alguém e ao mesmo tempo a um público que pode decifrar o Verbo que nos sai da pena.
E esta está sublime.

Sara Almeida disse...

Como eu te entendo... E quantas cartas já eu mesma não escrevi aquela que partiu e que ainda hoje continua comigo, dentro de mim e para mim... O silêncio é de quem cá fica e não deles...
Um Beijo.