sábado, 25 de outubro de 2008

Treva




O poema move-se na obscuridade
Do seu escuro pensar
no jardim de negras flores onde o poeta sangra
Perde-se o nome na boca errada
o cansaço e a insónia crescem dos olhos metafóricos
cães fantasmas devoram a paixão
onde a vida ganha violentas formas
uma estranha águia rasga com o seu bico a têmpora febril
do homem que escreve
o seu abismo
a sua árvore
a sua melancolia
cravada na limpidez dos dedos da terra devastada
pelas avenidas desarrumadas onde deambulo
escurecido de beleza rudimentar
fixo a corda ao cais maternal
onde recordo a ternura completa
das roseiras de seda
a infância arrasada pelo crescimento do corpo
alimento o peixe estelar
trabalho para ti desde sempre
mesmo que não o entendas
mesmo que não o vejas
mesmo que não o sintas
espero em silencio
como o monge de Friedrich
esqueço as cores que me habitavam
entrego-me ao minucioso trabalho
das mãos por dentro do corpo
à colheita da luz que escorre das madrugadas
dos campos ferozes onde habitamos
a Casa de solar arquitectura
eu imagino com delicadeza essa claridade
as sementes preciosas do amor por germinar
veneno espalhado pelo sonho por sonhar
um alicerce suspenso na noite
que me toca o rosto iluminando-o de exuberante treva.

13 comentários:

Maria disse...

Hoje perdi todas as palavras...
... mas arrepiei-em com o teu minucioso trabalho das mãos por dentro do corpo... belíssimo...

Abraço

SMA disse...

e o poeta sente e inclina-se e se dá
.
.
.
entre o antagonico da dor e do querer
bjo...

AnaMar disse...

És o poeta e o poema.
Abraço.

Graça Pires disse...

O poeta: o seu abismo a sua árvore a sua melancolia.
Escrever. Esperar o silêncio.
"entrego-me ao minucioso trabalho
das mãos por dentro do corpo"
Belíssimo poema.
Um abraço

Ad astra disse...

da insónia partilhada...
ou, da verdadeira acepção da palavra poesia

Claudia Sousa Dias disse...

já tinha saudades de cá passar...

CSD

TCHI de Tchivinguiro disse...

Detenho-me.

«A sua árvore».

«Um alicerce suspenso na noite».

Parto, mas com regresso.

~pi disse...

fio fio de luz

que te arde

onde nada (ainda

sabes



~

Vieira Calado disse...

Que belo poema, meu caro!
Fiquei deliciado.
Muito bem!

Um forte abraço

nuvem disse...

Uma viagem às profundezas do poeta.

Mais uma vez, gostei.

Carol disse...

Uma viagem ao fundo de ti...

Lilazdavioleta disse...

Belíssimo !

voltarei.

Alexandra Carvalho disse...

Lindíssimo texto. Gostei muito.