quinta-feira, 26 de junho de 2008

Cicatriz


"The Chemical Of Us" - Frank To

Escrever para a escuridão
é um ofício de luzes
e nós continuamos
à procura do sagrado dos dias
ou do chicote do amor
do inferno da graça
entre a permanência e a destruição
um movimento intenso para um nascer
um sentido para fora
uma contracção
um sentido como uma rosa altiva
uma boca metódica conceptual
uma flor de violenta paisagem
onde se presume a ausência da sombra
uma ilha desaparecida na plataforma do tempo
e uma canção para abraçar os extremos
a humanidade do teu rosto caído
essa grande cidade perfeita
como um talher que corta com simplicidade o meu peito
num piscar de olhos como um relâmpago
para ferir a carne desamparada
no cimo dos mais altos montes
a cor mais intensa da brilhante cicatriz.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Pássaro Azul




O que brilha mais não é o teu dinheiro
podes deixá-lo à porta antes de entrares
aqui o que podes encontrar é o canto do pássaro azul
e isso não podes depositar em nenhuma conta bancária.

domingo, 22 de junho de 2008

Desaparecidos


"Remembrance" - Bill Viola

As asas começam a viagem
do voar dos dias futuros onde tudo perderemos
a crueldade da memória é um tesouro
vincado no rosto que diariamente aprofunda
o abandono da casa assombrada onde pernoitamos
um edifício destroçado tamanho do coração
é tudo o que podemos oferecer
à língua amarga dos desaparecidos.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Outra Canção


Marnix De keukelaere

Outra canção para o ouvido triste
Outra vontade para o coração
Um violino para o lugar mais fundo
Que se chama tempestade
Uma algema para as asas do pássaro naufragado
Uma bala para a mentira
Uma caverna de laminas para o sangramento da solidão
E uma voz que não seja uma sombra de rasgados destinos
Tu conheces-me pelo fogo
Porque me viste crescer ao lado das magnólias de espuma.
Viste-me arder profundamente
E isso não cabe em nenhum papel.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Godot





O poema começava com os lábios fechados
e a língua cosida ao coração
este ainda batia ao compasso das promessas por cumprir
a noite deitava-se ao lado do corpo insone
os dias acorrentavam-se ás horas das perturbadas penumbras
quando o sonho saía com o seu cão para o xixi matinal
Depois calçou os sapatos da memória
e esperou que uma dor o despertasse para a permanecia entre os vivos
e que do absoluto naufrágio
muito haveria ainda a perder
que não fosse só a pele e os ossos
do seu nome fictício.

domingo, 15 de junho de 2008

Estrelas


"The Dark River To Antares" - Maximo Ruiz

Os melhores dias afundados na medula do tempo
as ruas interiores sob as escondidas paisagens nocturnas
a viagem e o convite à viagem
as margens abertas no dentro de um ventre
o húmus primacial feminino
um deus na tonalidade do vento
que arrasta para a parábola a ferida
um corpo revelação para animais famintos
a ocultação do anunciado
o reencontro por entre flocos de neve perdidos
sob a mesa do olhar senta-se a cúpula celeste
A plenitude da noite deitada no esquecimento
do teu sorriso
puros fragmentos de luz
os teus olhos
estrelas…

quinta-feira, 12 de junho de 2008

um


Sandro Botticeli - St. John Head

Acordo para o sol
e sinto a sombria ausência dos amigos
cujas asas se dilataram em relembrado naufrágio
na mesa ardida sob a clepsidra do tempo
os rostos fitavam-se na inquietude da partida
o vinho selava ou abria a ferida
iluminava pela última vez
o falso lugar onde pernoitávamos
um dia perdemo-nos por aí
nos porquês da escadaria sem degraus
escorregámos inúteis
à procura de melhor desastre
já não os ouço
e deixámos de ser um

quinta-feira, 5 de junho de 2008

A Cidade Futura


Nicole Wong - "City Shadows Diptyche"

Habitável brancura
A cidade futura
Onde inventamos a raiz de sermos do chão até ás nuvens
Capazes de um precipício onde cabe inteiro o nosso nome
mar onde melhor se escuta o obscuro silencio em que nos refugiámos
cinzas dos dias de lento amanhecer
os trabalhos mínimos dos olhos levantados na crispação do sonho
uma artéria por onde as crianças desaguam na ternura de suas mães
uma colcha para estender o amor por sobre os campos de mágoa
um pássaro de voo incandescente desperta a febre
num corpo frágil arrancado ao turbilhão do sonho
agora as mãos aproximam-se do rosto ávido de espelhos
um navio flutua na imensidão da noite
estamos sós
nas águas profundas que fazem de mim uma cintilação
e de ti uma faca para esculpir um segredo na leve poeira astral
nome para cortar a escuridão do mundo
e dar o olhar subtilmente azul
à palavra liberdade.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Pequenos Passos


Alexander Gardner

Abriu-se a porta
para a brevidade da luz de imaginar o mundo
e a demência do sonho
propagou-se pelas letras grandes com que se escreve ausência
na largura da espuma dos dias
reconheço a lua que amadurece a noite
e o braço luminoso da madrugada
no contínuo das horas de branco vestidas
uma veia essencial é o único bem que pudemos carregar
enquanto a vida escorre pela garganta do tempo
preso à derradeira corda
nua Imagem obscura que tornas e partes
espelho que talha na sua imagem
o gesto que alimenta a escrita
não falo de mim
mas da paisagem eterna onde a poesia acontece ferozmente
das janelas miraculosas onde se esperam as palavras que partem
para a alimentação do poema
e o tempo com o seu corpo incandescente
de horas veementes onde se pode encontrar a raiz
de uma a casa habitada pela loucura
não mais que serenidade e musica redimida pelo âmago das coisas
por dentro de tudo num movimento direccionado a tudo
Mas o que existe não é senão um punhal incendiado de abandonos
um salto para escapar ao esmagamento do peito
mãos para a profundidade do sonho
e um rosto imenso ferido pelas ruas em que não passas
chamas-te esperança e nunca te encontrarei.

terça-feira, 3 de junho de 2008

A deus



Para Ana Aires

Tudo o que não fossem as horas pesadas de te ires embora
para fazeres corpo com as nuvens
e seres chuva cedo demais precipitada...

sábado, 17 de maio de 2008

Berlindes


"Snooze" - Ronald Nowak

Sabe bem escrever
é como se estivéssemos vivos
e com uma faca de palavras cortássemos a morte pela raiz
numa caligrafia de pontos magnéticos
para devorar os dias e as noites nos intervalos da melancolia
de oriente para ocidente
devemos escancarar as grandes janelas do mar
para que tu chegues como água purificante
e eu seja rio que possa eternamente desaguar
nos teus dedos fios de chuva
gotas de sonho na minha pele
alguma coisa de beijar
e eu fosse despido dos embrulhos da estupidez
num tumulto de profundezas astrais
a poesia como um gelado quente
no chocolate das tardes que nos envolviam
eu subia pela cauda dos cometas
adormecia
respirava no infinito
brilhava na serenidade de ser eu
mergulhava nos muitos sonhos das coisas dignas
que minha mãe me ensinou
perfurava até à carne na pressa de ter um corpo
onde pudesses habitar um nome sem lágrimas
uma vida sem castigo
e via-te passar com os meus sonhos nos teus olhos
na cegueira de abençoar o mundo com um poema
que desse a luz à noite
a treva à madrugada
um precipício à boca
e mais alguns berlindes para os olhos do coração.

domingo, 11 de maio de 2008

Os Dias Erguidos


Man Ray -"Negative Blonde"

Contrato com o oxigénio
que pulsa por dentro das roseiras bravas
um campo onde o grande maquilhador, o tempo
se esqueceu de matar
os passos para o perturbante silencio
mas antes disso temos de dizer qualquer coisa
para que o baptismo seja mais real
o sangue mais puro
o olhar mais duradouro e sobretudo para que possamos voar
por dentro um do outro
até nos perdermos um dentro do outro
nessa hora lenta e queimada
como as nuvens que transportam o primeiro carinho e outras palavras de berço
veleiros acordados pelo luar do coração
esses pequenos barquinhos nas mãos do mar
recolhem-me á praia
à casa de verde espuma
e estou pronto para me levantar
para ser aniquilado pelo vento que se escreve e multiplica
com uma espiral de ternura por dentro
até que de dentro apareça e fora ressuscite
o que morreu perplexo e que agora brota
num convite à insegurança do belo

Se estas mãos pudessem
Escrever o teu frágil nome
Eu esperaria por essa tempestade
na límpida madrugada dos dias erguidos.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Fogos


"Nocturne iin Black and Gold" - James Whistler


A interminável janela
papel branco daquilo que está vivo
na larga avenida das horas que passaram
onde o veneno do tempo não nos poderá cegar
o interior dessa marginal
a boca aberta para a grande fome do dizer
e nós falamos esta linguagem
que ninguém ensinou
amamos as margens
dos fogos por atear
aos campos de sermos nós
e as manhãs começam
quando a escuridão atravessa os relógios do fim da tarde
e fluímos para a brancura da palavra

bem-vindos os que desembarcaram na sombra
onde lançámos as nossas frágeis âncoras
e ardem como nós
no coração que governa o pavor do mundo.

Completamos os nossos destinos
Como os dedos solares
no sorriso do acordar da terra
trago-te por baixo de um milagre
que não me pertence
um corpo surpreendente
de olhos proibidos na acendida penumbra.

domingo, 4 de maio de 2008

Poderia subitamente...


Odilon Redon - Strange Flower, Little Sister of The Poor

A palavra é o espelho
rosto a rosto
a viagem perfeita das línguas essenciais
a ascensão e a queda
no copo do vinho que equilibra a sombra
que por dentro de nós é hora de todos os minutos
adiante a esperança não está naquele lugar profundo e estrutural
apesar de conhecer pela sede
os poços onde vibra a respiração das madrugadas
do animal que se contorce na teia do ideal
realidade que foges sempre sempre
como o réptil assustado pela sombra do morrer do dia
não sou mais que um arabesco errante à procura da palavra nua
o poema cru vivificado pela alegria da luz contagiante
um bilhete postal
uma pedra ao lado do teu nome
veia do poema
luminosa areia
efémera como o gotejar do tempo
eu sou o arco e a flecha desse tempestade que não conheceste
um presságio como uma futura ferida
eu sou a impossibilidade e o perfume da escolha
o tangido alento que a insónia promete
um descanso merecido nos confins do mundo
eu deambulo ente a luz e a luz e por dentro da treva da luz
como um cão ou um gato melancólico
trabalho no deserto a minha existência de papel
poderia enlouquecer subitamente
se não existisses quando fecho os olhos.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Grito



Aurora - F.W. Murnau

Morre-se muitas vezes e ressuscita-se poucas e cada vez que se mergulha perde-se um bocado de voz e quando de novo tornamos à superfície já não somos os mesmos somos menos temos menos que matar menos que perder e já pudemos acabar no para sempre que é o horror do dia a dia Porque a noite é onde se respira melhor e não precisamos de aturar gente próxima do chão gente sem asas gente de cócoras que não sabe o que é um precipício a esperança acontece de noite a noite expulsa todas as sombras a desordem da dualidade e a contradição a noite é um respirar a água à sua mais pura transparência a água que dá cor aos olhos a água pura onde os barcos se sentem seguros o Homem é uma coisa de nocturno espírito é uma coisa tremenda para lá do concavo infinito das noites mais claras a nossa casa é feita dessas muitas estrelas sem senhorio dessas imensas luzes olhos do gigante a quem não conseguem cegar somos nítidos absolutamente transparentes subitamente somos para sempre somos o dentro daquele lugar primordial que nos imobilizou quando nos olhámos pela primeira vez somos os nossos nomes verdadeiros não aqueles que nos deram por medida no baptistério de uma igreja mas aqueles outros que só de luz se pronunciam aquela luz que torna a noite negra e permite que tudo vejas pelos meus olhos porque para olhar só preciso de ti
um pedaço de infinito
na ponta desta caneta
um grito.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Não Foste Breve Na Minha Noite



Tom - "Nighthawks at the Dinner"

Não foste breve na minha noite
nem tangível como as faúlhas brancas do poema
por exemplo o abismo onde se escorrega
é o pássaro das coisas intensas como a boca do vento
no olhar vadio da espuma de uma vaga

Sou estrangeiro à vulgar felicidade dos acrobatas
mas torço as palavras ao firmamento
e danço generalizadamente mesmo quando não escrevo
mostro as mãos quotidianas
orquídeas em flor abertas em lençol sobre a terra peixe
ou nuvens sentadas á porta dos instantes
pequenos milagres
assombrações para um corpo
que alguém tem de encontrar na posição correcta
uma janela como um coração
e um muralha de musica para o abrir e fechar sem pensar nisso
nada mudou sobre os arcanos do tempo
na saliva com que se mata o ultimo beijo
eu vejo as ruínas do homem breve e o primeiro gato
que salta sobre os ombros da madrugada
é a única coisa decente que hoje poderá acontecer-nos.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

No Bolso Esquerdo


William Blake - The Ancient Of Days

No bolso esquerdo da camisa
bate um coração encerrado nas diversas magias
do tempo com os seus grandes ganchos
transportam as memórias à flor dos olhos
águas torrenciais que percorrem a pele e esculpem o rosto
com que viajo amarrotado por dias nenhuns
os brutais intervalos lunares da melancolia
amarram-se à corda com que deambulo vagarosamente pelo sonho
mistério estrutural das coisas libertadas
no abrir e fechar das palavras
para que as imagens saltem
como os animais no principio do mundo
Eu agora sou um rio primordial que corre para a sua fonte
sou um corpo de espuma que dorme com a sua vaga
uma cintilação que em silencio espera da noite
a lucidez das flores
como um relógio preciso dentro nas veias das grandes árvores
sou um animal prudente com relâmpagos pelas unhas
tinta para dar cor aos segredos mais infimos
agora brilhamos por dentro
somos um dentro a deitar a luz para fora
um poço que jorra as incomensuráveis
lonjuras da luz roubada ás estrelas
um caminho paralelo cicatrizante e profundo
laranjas loucas com seus gomos repartidos pelos meses
uma chuva com a correcta pronuncia do meu nome
finalmente sei que o meu nome provem das nuvens
e das devastações que por meus olhos se anunciam
na absoluta claridade de um acordar.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

A Noite


Malevitch - Black Square

A noite
A noite crua
A noite com pedaços de lua

Margem


Enquanto alguns ainda dormem
A aranha acende o dia com as suas patas luminosas
O dia luminoso da aranha
O dia claro e distinto
O dia cheio de canetas
Termómetros para a redução da febre dos papeis que ardem
Uma árvore a crescer do oceano
corpos celestes
barcos com a tempestade do seu precipício
As nossas mãos que fazem o trabalho desqualificado dos que pensam
Os dedos mastros que nos unem pontes invisíveis
Pontes assentes nas grandes fundações do sonho
Do voo mais alto, mais puro, mais muito
Muito mais de tudo
inclusive
O cão de olhos claros
que todos os dias encontras nalgumas esquinas da tua memória
sou eu e outros como eu
os que nunca tiveram pátria
que não a palavra margem
sombra que não fosse um abismo apontado á cabeça
uma corda para prender a noite ás lâmpadas do tempo
ao relâmpago dos lugares mais fundos mais inacessíveis
mais cortados pela Primavera que não chega a tempo
de algumas mágoas despejadas
na casa esquecida onde habitámos sentir

sexta-feira, 28 de março de 2008



Brevemente
É assim que se chama a vida
Um falso lugar ancorado a três poemas
O meu, o teu e o desconhecido

quarta-feira, 26 de março de 2008

Balada dos Dias Circulares



Indefinidamente
A luz atravessa o teu corpo
tecla de piano

A areia molhada onde deixaste as roupas
Roubadas pela noite
Tecla de piano

Cidade costeira
Grito de espuma
boca dos assombrados
o teu reflexo inseguro
no canto dos pássaros marítimos
Tecla de piano

Ouvido de concha
Rente aos segredos que não nos pertencem
Tecla de piano

Cidadezinha que instantânea te desfazes
Gato oceânico límpido olhar de água
Tecla de

Marfim de mais um dia
Sapatos rotos
Passo de poeta
Tecla

Os minutos suspensos
na vida dos ramos das mais altas árvores
Compreendo agora
todas as palavras encantadas
vento destruído pela ferocidade da musica
um rosto com o seu abismo
uma ponte para o incêndio do silencio
um movimento puro
a loucura aproximando-se da caneta
ou um garfo hipnotizado
para a alimentação das estrelas.


terça-feira, 25 de março de 2008

Voz


Seremos eternos
Não haverá tempo para
Nem espaço onde
Crescer para a grandeza do lugar mais elevado
Onde se situam as perguntas mais difíceis
Existe apenas uma resposta
Para todas as histórias por contar
Um segredo preliminar antes da fala
Como um lençol de rosas coberto de vermelho pétala
Um sino de igreja que repete a palavra insónia
E um morcego delinquente na lingua do firmamento
Seremos eternos
Teremos um só nome
Murmúrio de água no vazio das horas
Um alfinete cravado na lapela do sonho
ou uma cabeça de homem esquecido onde já não existe dor
Boa noite
Ainda aí estás?
Então vamos continuar
Com uma vida simples
E asas que nos conduzem ao ninho mais quente
Ao mais saboroso pão
Diamantes?
Ou o peixe crepuscular que sobrevoa os cabelos da terra
Este lado do vento norte que se propaga pela luz trémula da palavra
Somos o gesto de abrir a janela que dá para os invisíveis gabinetes da memória
A desobediência está aqui
No ver muito para alem do necessário
No exigir mais pobreza da mão do homem
Mais cor para a paisagem branca das folhas de papel por escrever
Ou um tempo prodigioso atrelado a dois cavalos negros
A nossa bandeira invisível aos olhos
A nossa voz indizível de poesia intacta.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Fantasmas


Colorphul Phantoms - Kazuya Akimoto

Para cada fantasma
um esqueleto de ossos
para cada homem
um lençol de Agosto
para cada tempo
um olhar e um precipício
uma boca de letras grandes
para matar a oxidação do tempo
e nos seus grandes vértices a luz solar dos teus cabelos
gotas de chuva brilhantes
onde se recolhe o sonho
o incêndio do dizer
estas palavras como uma história de explodir
uma tapeçaria de numerosas estrelas
uma branca floração no céu nocturno
pirilampos distantes
múltiplos espaços
onde poderíamos aprender a dançar
a noite é o velho quintal da nossa casa
eu saio pela janela
bato as asas
abro este livro
e ouço a tua voz.

terça-feira, 11 de março de 2008

Tudo Quanto...


Bacon

O sonho é onde arde esta cama inexplicável de acordar
uma zona de propagação das cores ácidas
brancas e vulneráveis
neste pequeno jardim
eu nunca quis companhia
por pensar que estava a mais
totalmente calafetado com poemas e outras quinquilharias
mas do peito surgiram as aladas estrelas carmim
que esperava desesperadamente
antes de me despedaçar
nas pálpebras dos meses e dos anos
olho a noite
é tão pequena
que caberia nas mais perenes mãos
eu diria que me deitaria á sua porta
como um animal abismado
e tudo quanto me cega
é tudo o que me deixa ver.

Poemas do Contra, Baixo e Guitarra





Apresentação de espectáculo dia 20 de Março -18.30 H

Biblioteca Municipal de Matosinhos




segunda-feira, 10 de março de 2008


Munch - Burning cigarette


Os dias de chuva dilacerantes
aparentemente perdidos
entre o nosso nome e a musica das palavras
entre dedos e o tempo dual não ouço
a escrita como um lábio púrpura não sinto
uma mordaça como se não falasses
o dizer do explicar sem perceber
um cravo e um gesto transparente
cruzamos um olhar iluminamo-nos
transbordamos
queimamos a dor infinita no sonho de nos ter-mos
não sei escrever a dimensão da ausência
ou os longos promontórios do esquecimento
braços orquestrados onde guardo
os pássaros descartáveis
que me morrem pelos ombros
e eu recordo como eram os melhores amigos
uma lágrima escondida que me deixava vazio
pronto para o recomeço da memória
algum tempo para te dizer olá
um jantar para te agradecer
o perder de ossos que me são tão pesados
apagá-los no bolor de alguma praia
onde pudesse inocente ser alga
ou pepino do mar
ou cego de música e surdo de luz
e de madrugada
florescesse...

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Flutuamos nas Sombras


Barbara kruger

Flutuamos nas sombras
E no sorriso diário que se tolera
O outro feito de sabidas substâncias
Pisca o olho ao desequilíbrio do mundo
Somos gatos selvagens crepusculares
Que não lamentam saber escrever
Somos o sol queimado pelos ninhos
Onde habitam os nossos nomes
Uma flor feita de peixes
Um colarinho de libélulas
Um cometa vivo
como uma devastação de água purificada
Um acidente visível
O rosto e um gato mais
Que adormece as mãos no negócio dos sonhos
Sustentado pela enorme língua sublunar
Um continente perdido
Onde abruptamente nos penetramos
Algures entre a palavra noite
E o deslumbramento do silencio perfeito.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Todos Esses Instrumentos...


Todos esses instrumentos vermelhos
com que trabalhas o tempo em forma de cão
todos esses passos irremovíveis
com que salpicas o teu destino
servem-me de mira para te apontar este poema
que assinala a minha presença onde quiseres

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Coração da Noite



"A Noite" por: Bezugly Oleg

O fogo abre-se ao meio
Abre-se num gotejar de espuma dourada
Que queima de néon o coração da noite

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Sem Titulo




A sua voz macia e meiga poderia custar algumas vidas
mas o que é uma voz terna comparada com umas vidas?

Teria que te dizer onde me escondo
desvendar os meus nocturnos passos
e ver quanto pesa esta carga e o meu sorriso
e talvez entendesses este caminho de nunca chegar
o meu inimigo
uma agulha de tatuar o luar
um livro assassinado por estranhas mãos
e talvez lá chegasses
e entendesses o sofrimento do navio que arde
uma produção de guerra
um nervo
uma garra de corvo cravada no granito
uma gota de sangue na curvatura do sonho
uma colcha de luz para cobrir o infinito
não discutas com o homem que parte
porque viaja no silencio contraditório
a noite primordial com os grandes olhos do acaso
alimento tinta para a boca do poema
Tu a quem dou o tudo do meu nada
Tu com letra grande
Tu de corpo invisível
Tu que não me conheces
nem podes conhecer
porque sou estrangeiro
e não sei correr as cortinas ínfimas
da verdadeira pele e do verdadeiro Sou
mitigado e doloroso
apresento-me aos deuses desleixado
confesso que não me chamo Carlos
nem tenho outro nome
nem sei do meu retrato
nem me retrato no retrato
nem tenho outro mundo
e no fundo
um cisne a fazer de gato
um sapato acrescentado ao pé da evidencia de te ouvir sorrir
e não me deixo abater pela máquina dos lubregues suspiros
nem dou ás procelas os meus preciosos ossos negros
violentos no amparar da carne
e nos minúsculos movimentos do sol
nos meus olhos apagados.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Voz


Dobro-me contra as folhas
coloco-me na posição de mudar o mundo
acolho o profundo azul
que existe nos olhos dos pássaros
e no sangue que a rosas bebem
dos pulsos dos sacrificados
dobro-me contra as folhas
carrego nos botões solares
nas cordas vibrantes do planeta
e ofereço-te uma cidade musical
eu queria uma voz que fosse âncora
e uma arquitectura que fosse o teu nome
um vidro de extremas cores
eu queria um piano e uma citara estrutural
onde pudesse adormecer quase sublime
passar á condição de bicho que sonha
a altivez do teu perfil
a tua mão no sentido da respiração das magnólias
os dedos que alcançam a palpitação das ideias
loucas por pouco tempo
abertas à lucidez do abrir
uma porta para o começo da loucura
se eu quisesse engoliria um asterisco
transformava-me nalguma coisa sensível e cortante
um rosto parecido realmente com o meu
um cálice muito acima das nuvens
onde fossemos só brancura de chuva a cair
e à sua transparência desaparecessemos…

Quem?



Diz-me quem é esta gente surda
que se movimenta por entre os pequenos
espaços das pautas de musica
quem é esta gente de rosto voraz
de dentes limpos e cada vez mais limpos
que rouba a cor ás palavras
e que nos ameaça com chapéus de chuva
molhados de imbecilidade
quem são estes serafins globalizados
com as suas fardazinhas impecavelmente abertas
aos tentáculos que lhes saem pela gola
quem é esta gente que cheira a peixe frito
E ridiculariza a 9ª sinfonia de Mahler?

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Mas...


Wojtek Kwiatkowski
Estou aqui
E ouço o bater de asas do meu anjo caído
Canto a água branca e estrutural
Com que beijo a boca da terra
A raiz que sonha a flor
Um poema na algibeira do tempo
A iluminação da primeira noite do mundo
Uma palavra no crepitar da memória
Eu guardo cá dentro a ascensão destas coisas invisíveis
Percorro-me pelas veias e os profundos canais das minhas mãos
Que nada prendem
Que nada sabem reter
Fora das horas mostradas pelos relógios
Sobrevoo os telhados onde procuro o meu verdadeiro nome
Minuciosamente escolho a primeira letra
Que escreveram na pele deste homem
Minha mãe
Um tesouro como o segredo de bagos de romãs
Eu não faço parte
E não sei para onde vou
Mas estou aqui e insisto na fúria mínima da palavra
E na violência dos jardins incendiados pela memória
Onde uma criança nasce de uma rosa altiva
E de um perpétuo desencontro
Um milagre para assustar as órbitas dos olhos cegos
Uma ferocidade translúcida no quebranto do corpo
Um ritmo na carne batida contra os búzios
Eu sou um pedaço de língua bifurcada
Uma caneta anónima
Uma luz trémula na contradição das coisas vivas
Não faço parte
Mas sou.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Carta a Um Amigo


Caravaggio


Hoje dei comigo no teu funeral a falar de vendas de automóveis. Pelo canto do olho, por detrás dos óculos escuros, observei fugazmente uma rapariga que outrora tinha desejado e continuei a falar de automóveis e do terceiro AVC do meu primo Carlos que apesar de tudo continuava a fumar com todo o prazer.
E no entanto, uns metros adiante baixavam a tua urna para a escuridão sufocante da terra. Os teus filhos comovidos choravam para dentro e para fora, com a cabeça baixa de quem fora inexoravelmente derrotado. Eu continuava a falar com o meu interlocutor, que me mostrou a carteira aberta com a listagem de todos os medicamentos que lhe deviam dar caso surgisse o 4.º ataque. E que pensarias tu de tudo isto?
Pouco importa. Ficarias contente por lá estarem os teus amigos e mais alguns hipócritas tragicamente comovidos com a miséria da morte alheia. Quando te vi a semana passada, agrilhoado aquela cama de hospital não pensei que pudesses partir tão breve. Agora é noite e uma luz mais se acendeu ao pé daquelas outras que já havia baptizado com os nomes dos amigos que jamais verei. Eu sei que não precisas de mim para dizer do alto exemplo que foi a tua vida e que agora é só memória. Os teus filhos puros e fortes dos quais recebi a bênção de ser amigo. Sempre foste livre e a tua liberdade nunca prendeu ninguém, nem mesmo os cães que sempre te compreenderam à primeira ao contrário de alguns. Eu hoje agradeço-te profundamente por todas as mudanças que em mim fizeste nascer. Da importância de amar a terra secretamente, do êxtase de ter uma vinha cuidada à tua maneira, arte viva diriam agora alguns. Nunca disseste mal de ninguém e razões para isso não te faltariam concerteza. Perdi aquele abraço forte como uma montanha e aquele sorriso franco e aberto que de presente sempre me ofereceste. Agora carrego também a tua sombra, mais uma a juntar à noite grande das ausências. È uma merda a morte, e tudo o mais que possam dizer são grandes tretas politicas, boas para determinados círculos eleitorais dos quais não sou eleitor.
Não mais verei o brilho tão nítido dos teus olhos castanhos, a limpeza dessas mãos que quebravam os ímpetos da natureza e dela faziam outra natureza. Mas o teu nome está inscrito na perfeição das primaveras vindouras e no vento sem destino que nos beijará eternamente quando por nós chamarem todos os poemas.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008


Para ver um barco afundar
É só preciso ter um oceano nos olhos
E eu tinha tudo para escapar
Um coração perfeito
Um fato onde cabia
O lugar certo metodicamente alinhado
Onde os naufrágios eram improváveis
Mas o nosso lugar pertence à cidade futura
Onde escreverei o regresso dos teus passos
Num perder de lábios molhados de luar
E uns braços razoavelmente feridos
de te não esquecer.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Luíz



A Srª. Miséria bateu à tua porta
Calçava sapatos vermelhos
E não pronunciava as vogais com correcção
Estendeu-te um livrinho minúsculo de orações
Mas tu sem coração no lugar certo
Não poderias torcer o nariz à noite
Nem dançar essa valsa obliqua
Sem o teu fantasma
Poderias viver mais mil anos
E nunca enlouquecerias
Nem encontrarias o teu lugar
O teu fato estaria sempre amarrotado
E a braguilha sempre aberta

Uma esmolinha?



quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Poema Para Se Dizer Em Voz Alta


"Os Bêbados" - José Malhoa

Abre bem a boca

Marca a página e começa
Ilumina-te de vagabundo
Vai para o telhado
Acorda a terra que dorme profundamente
Lança a corda ao tempo
o teu inimigo
Sobe a escada devagar
Acende de cintilações
Os teus olhos verdes de cegueira
Apruma o teu vestido
Veste a pele do menino
Bebe a água do mar que te chega ás mãos
Prova o sal e vê de onde és
Chama por ti próprio
Conhece o teu fantasma
Despe as roupas
Entra devagar nessas águas,
Flutua como se fizesses amor pela primeira vez
Deixa os ossos pairarem no vazio
Fecha as pálpebras
Olha para dentro até que as lágrimas cheguem
E aponta-lhes o dedo
Aos astros e ao grande imprevisto
Arde
E podes agora começar a falar
Identifica-te uma vez que não és só cinzas
Nem pó de estrelas
Deita fora a caricatura
Fala
bate-lhes forte e vigorosamente
Cabeceia-os
Deixa-os doridos
Dormentes com fezes nos fundilhos
Vês como são mais porcos que os porcos?
Foje deles
Incendeia-os

Em tudo o que dorme e respira
Não o sabias?
Ora toma!
Fecha a boca
E vai dormir.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Auto quase retrato


Edward Hopper - "Nighthawks"


A musica que me acolhe ao amanhecer
é a do cheiro luminoso da tua presença
a minha fragilidade escreve-se
na penumbra que anuncia a tua partida
e no terror da ausência infinita
com que o ceifeiro negro nos ameaça a cada dia
a viagem faz-se também aqui
neste sitio onde te recebo
lençol extremo da ternura
que por vezes oculto
amarga vitória de palavras não pronunciadas
eu sou a contradição
e milhares de anos de culpa judaico-cristã
um pecado no lábio mordido pelo beijo
um silencio que espera o anjo
que nunca conheci
porque não sei o nome
que todos os dias digo incorrectamente
os amigos que partiram
e deixaram a casa em ruínas
a cidade queimada pela ausência
ascendo agora por sobre a terra
onde a luz nunca se apaga
habito na sombra estrutural
dos arquivos do tempo que nos resta
reconstruo e destruo os minutos
do que dissemos e fizemos
sou a gota que alimenta
a garganta do homem no deserto
o viajante que adormece na tua cama
e nocturno se esconde no teu corpo.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Movimento


O vento levar-nos-á
como no cinema de Kiarostami
pelas margens solares dos trigais
dourados fios dos teus cabelos crepusculares
janela colorida de promessas
sonho e sonho abraço do sonho
as cidades que de ti partem
este poema que partilho
com o cão sem dono e sem liberdade
um profundo sussurro
uma lágrima que condensa no seu núcleo
o berço esquecido
o meu país sem tempo
perdido na solidão das cordas
que amarram os corpos ás pedras frias
estes bolsos rotos
por onde perco as dores a cada passo
que marcam o tempo que não foi
o som que não escutei
eu corro por essas ruas sem sentido
levanto-me das muitas campas onde me sepultei
revejo as minhas vidas passadas
na pele dos peixes vermelhos com que me tocas
e me concedes a verdadeira bênção da inconsciência
vou circunflexo
musical e desassossegado
brevemente existo
na terra por onde já não passas permaneço
mas esse país
conhecer-nos-á pelo nosso nome.







quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Gaveta de Luz


William Blake

Gaveta e luz
que te não abro
para não cegar de vez
Gaveta de luz
onde guardo a brancura
com que pinto este papel a palavras negras
Gaveta de luz
espuma destes dias
mar de púrpura flor
água sonhada
e tantas vezes respirada
Gaveta de luz
nau petrificada
que somente aos corvos pertences
livro do sal e da areia
esta minha terra
litoral de dunas devoradas
vertigem de morder os dedos
o medo visível somente ao entardecer
o silencio lunar do corpo
entregue á mansidão do esquecimento
pétalas de fecharmos os olhos
num precipício perfumado
gaveta de luz
lençol onde termina o sofrimento dos lábios
abertos pela treva oceânica
gaveta de luz
onde nos abraçamos
no momento único
de nos recordarmos até ao fim.



sábado, 10 de novembro de 2007

Despedida


Yves Klein - "Blue Sponge"

A terra tremia e era doce o teu sorriso
Iluminado com a coragem das mães solitárias
De nenhuns filhos
Olhava de lado o teu perfil
As rugas de solidão cravadas na pele
Alimentavam o rosto preto e branco
Alguns cães desenhados na tua boca
O excesso de beleza dos teus olhos
Fotografados na memória para sobreviver
nesse rio quotidiano que me ilumina
Por dentro sei das súplicas que ele me traz
Os sublinhados nestas frases
Perante a indiferença geral
A nostalgia da justiça que era ter-te

Tenho as minhas razões para ser poeta
Para olhar para as flores e para as pedras
E misturar-lhes mar e algum cuspo
E ser o que não sou fora de mim
Consumidor das luzes que trazem a noite
Um sistema de profundidades várias
Onde as palavras se entregam
Á verdadeira revolução que habita esta casa
Estes passos pouco suaves
Em direcção ao nada
Esta desordem
Estes dedos cheios de utopia
Algum sonho de menino assustado
A agitação que se aproxima
O amanhecer do dia primeiro
onde fecho os olhos para te ver
água
poema
rendição
mel da vida
despedida.

Desafio

A Joana Roque Lino da 8ª Edição (http://oitavaedicao.blogspot.com/, passou-me o repto seguinte:
1-Pegar ao acaso no livro mais próximo, com mais de 161 páginas;
2-Abrir o livro na pág. 161;
3-Na referida página, procurar a quinta frase completa;
4-Transcrever na íntegra para o blogue a frase encontrada;
5-Passar o desafio a cinco novos blogues.

Do meu livro:

“Porque a liberdade era o seu pão (este, como dissemos, não era amargo, mas sobretudo doce: uma alimentação quotidiana inexpressiva).

Pier Paolo Pasolini, in “As Ultimas Palavras De Um Ímpio”

Passo agora o mesmo desafio aos seguintes blogues, caso aproveitem a vaga:

http://contar-te.blogspot.com/
http://lagoreal.blogspot.com/
http://perolasdeouro.blogspot.com/
http://ocheirodailha.blogspot.com/
http://www.jacramos.blogspot.com/

terça-feira, 23 de outubro de 2007


Martin Ridley


Estas linhas
cozidas no desespero
da onda que leva à praia o rosto do homem afogado
de negro vestido com a saudade nas algibeiras
o tempo não vivido que passou
o numero da lotaria que lhe calhou
bagos de romã, a vida
enforca o sorriso do sonho na corda do amanhecer
a esperança nestes lençóis de linho amorrotados de luz
os teus braços onde acolhes a ternura
destes promontórios onde o poema abraça o mar
águas onde todos os erros são perdoados
este sal coruja da noite
asas silentes
estas mãos que escrevem para ti
os desastres onde mergulhamos a flor que decide o próximo passo
a pétala que cai sem força para permanecer
agora ascendo no silêncio deste quarto onde me perdi
sou uma pedra impossível no cabo do mundo
permaneço imóvel
espero o V de voo
das grandes aves migratórias que atravessam esta paisagem
e não tenho nome para dizer
da beleza do meu coração
quando dança nas tuas mãos.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Notável e profundo




O sal que das tuas asas se desprende denuncia o mar onde adormece a chuva que obliqua fere as teclas do piano minimal
berço de corpos desabitados de amor
descansam desertos de energia
os corações estremecem metodicamente ao atravessar do sangue
a presa e o caçador abraçam-se na derradeira paixão que antecede a morte
as mãos dadas ao suor que destrói para sempre
as ervas daninhas do passado na transfiguração da luz
um presente
uma fuga dolorosa
uma crueldade mimética
absurda oração das mãos que se não dão
um piano neste quarto gradeado
um tumulto nostálgico como um virar de página
o tempo que escorre e afoga o naufrago gota a gota.

Levantou-se
relembrou todas as letras
que dos poemas sabia existirem
e a golpes de azul
desapareceu por entre alquimias
de fumos de cigarros

Notável e Profundo
são as únicas palavras inscritas na sua lápide.


sábado, 13 de outubro de 2007



"Nude in Silence" - Jacqui Faye Michel

Não tão silencioso
que não gostasses que te ouvissem
não tão inteiro
que não preferisses que te partissem
não tão ferido
que não quisesses que te salvassem
não tão escuro
que os teus olhos não cegassem
não tão intenso
que não temesses pela tua segurança
não tão ridículo
que não te permitissem somente a verdade
não tão puro
que não pudesses do nojo extrair a beleza
não tão cortante
que pudessem as facas beijar a tua língua
e por fim soubesses administrar o teu silêncio.

domingo, 7 de outubro de 2007

Sombriamente iluminados


Dali - a persistencia da Memória


Sombriamente iluminados
estilhaçados de luz
com o corpo por acabar
cheios de fantasmas
evitávamos o ar das cidades contaminadas
e buscávamos o nosso suor
e a nossa sede no silencio dos madrigais
onde deambulávamos cheios de letras indizíveis
e dávamos as mãos que não eram nossas
àqueles a quem pertencíamos

Sombriamente iluminados
estilhaçados de luz
com o corpo por acabar
caminhávamos nos telhados surrealistas e
levantávamos voo
relembrávamos estórias
pássaros que passam
que não precisam morrer nem saber mapas
o nosso voo metodicamente
sulcava cada gesto
cada abraço
cada milagre que entre nós
foi o de lágrimas não choradas
porque éramos felizes

Sombriamente iluminados
estilhaçados de luz
com o corpo por acabar
crianças fomos
e do mar fizemos
unicamente a paisagem dos nossos olhos
seara que nenhum desastre podia arrancar
eu sabia as pequenas curvas de cada duna
o teu corpo de água que fluía para o meu centro
eu comia desse alimento e crescia
olhava o sonho antes da tempestade
queimávamos o tempo com pequenas faúlhas
fechávamos os olhos e adormecíamos.
sombriamente iluminados
estilhaçados de luz
com o corpo por acabar.






terça-feira, 25 de setembro de 2007

Não tenho....



Bill Brandt

Não tenho casa sem ser a dos teus cabelos devolvidos ás minhas mãos
Não tenho olhos que não sejam a cegueira dos teus beijos
Não tenho sombra que não seja a luz que diariamente me forneces
Não tenho dores que não sejam as do medo de te não mais encontrar
Não me tenho a mim porque sou teu e nesse perder me achei
Não tenho boca para dizer as palavras que merecias ouvir
E triste estou por me faltar talento e inspiração.



segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Balada Para Uma Ausência


Jack Spencer


De repente tudo parece azul
de um azul profundo
estelar inacessível

desde que nas minhas veias
corra o sangue de ferir
eu digo
este lugar não é para ti
melhor ficarás nos mundos intermédios
onde a terra não treme
onde não precisas da perfeição do exigir
mais uma noite solitária
é o que de mais acolhedor posso oferecer
estas nuvens que passam
restos do teu cabelo
são o algodão e a água que corre
e que te recorda da melhor maneira

O Outono chegou em pleno Verão
plátanos e bétulas
despem-se com ternura e suavidade
preparam as raízes para o silêncio
e sinto o voo das suas folhas
conheço como o elas o chão do desamparo.




quinta-feira, 13 de setembro de 2007



Soa o canto do rouxinol negro
como a bala que fala
queimando de morte o corpo dilacerado
pelo beijo da claridade do ultimo dia
o solo etéreo na boca que não diz
o interprete da minha noite
o rouxinol negro tatuado nesta pele
pedra silente que atravessa o espaço
carrilhão de desenganos
depois o guardião da noite sentenciou-me
e eu fugi através dos ciprestes
que guardam o tumultuoso rio
eu fugi e mergulhei
nas muitas águas dos futuros sonhos
onde habitaremos os nossos corpos regressados do silêncio
eu fugi vertendo a dor nos passos que ardem os caminhos

Devolve-me ás estrelas
porque o amor
é o único milagre digno desse nome

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Uma Gota de Sangue


Mark Ryden

Escrever
é colocar uma gota de sangue
no sangue dos outros e envenená-lo
as palavras projectam-se infectas
saem das mãos do poeta
são jactos primordiais que atingem os outros
e assim o poeta como o perfumista
difunde-se e confunde-se nos odores dos outros
deixa a sua magnólia
e enxerta-se em tudo o que é planta de receber enxerto
o Poeta é um jardineiro
uma ave carregada de pólenes
um peixe pescador encantador de ventos
que sabe congelar o tempo
tempo que parou naquela carta que não enviaste
porque não me conhecias
e agora é tarde
é tão tarde que me perdi
de tanto passar por estas ruelas difíceis
que conhecem o meu nome pétreo
porque o meu nome caiu no chão
e quebrou o derradeiro sonhar do sonho
o poema despedaçado
que goteja venenoso nas palavras possíveis de escrever
porque há palavras que ainda não existem
que são como animais futuros
que habitam a boca dos poemas por escrever
eu digo e sonho
no dizer de todas as minhas vozes de homem multiplicado
eu digo que tal como a metáfora
embala o poema espreguiçando-se em todo o seu amplexo
também o Poeta se prepara para dormir
depois de derrubado pelo seu poema
Poeta vazio de palavras
que volta a ser humano
a alma contida dentro de um rebuçado
um corpo dentro das cidades queimadas
pela distancia de não haver partida
só saudade absoluta
memória lembrança das viagens por cumprir
no teu corpo perfumado pelo sarro marinho
a luz da luz que tudo escurece
este quarto donde acabas de sair com um sorriso infantil
que convoca as lágrimas que chorarei quando te perder.