Dora Maar por Man RayCruzo as mãos
fecho os olhos com ferocidade
procuro a fonte das palavras não pronunciadas
é ela a minha boca
a minha água no deserto dos surdos
boca que alimenta outra boca
um pensamento feroz
um sentimento arrebatador na minha cabeça coração
e conspiro no verde madrigal que foi a minha infância
recordo a textura das árvores
onde sonhei pela primeira vez para escapar à morte
e estou nas folhas perenes dessas árvores
feitas de vento subtil
que soprava pelos ramos dos meus dias iniciais como um milagre
eu escrevia os primeiros poemas
relembrava que te iria encontrar nas palavras
no amor que nunca ousei dizer
porque o amplexo do amor não cabe nas palavras
mas eu escrevia por dentro
como a aranha que tece uma teia para os seus filhos
eu escrevia a minha casa na noite habitada pelo teu nome.