quarta-feira, 8 de agosto de 2007


Dora Maar por Man Ray


Cruzo as mãos
fecho os olhos com ferocidade
procuro a fonte das palavras não pronunciadas
é ela a minha boca
a minha água no deserto dos surdos
boca que alimenta outra boca
um pensamento feroz
um sentimento arrebatador na minha cabeça coração
e conspiro no verde madrigal que foi a minha infância
recordo a textura das árvores
onde sonhei pela primeira vez para escapar à morte
e estou nas folhas perenes dessas árvores
feitas de vento subtil
que soprava pelos ramos dos meus dias iniciais como um milagre
eu escrevia os primeiros poemas
relembrava que te iria encontrar nas palavras
no amor que nunca ousei dizer
porque o amplexo do amor não cabe nas palavras
mas eu escrevia por dentro
como a aranha que tece uma teia para os seus filhos
eu escrevia a minha casa na noite habitada pelo teu nome.


11 comentários:

JRL disse...

Querido Carlos,
És um excelente tecelão! Bjs

Tchivinguiro: onde nasci. disse...

Quando o AMOR fala em nós deixa-nos desenhar a sua própria beleza.

Belo hino aqui nos partilhas.

Beijinho.

Ad astra disse...

É a partilha Carlos, o amplexo da partilha que só cabe na comunhão dos sentires.
Distantes mas iguais.
Um beijo Ad ti

Ad astra disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
CMondim disse...

a palavra - é ela q nos mata a sede e a fome.

bjs

blue disse...

um belo poema.

eu... disse...

obrigada pela visita
gostei muito do teu blog
um bjo

C Valente disse...

muito bom parabens
saudações amigas

GarçaReal disse...

Tens em ti o amor...


bjgrande

Dizeres de Andarilho disse...

É o amor que nos deixa a mente intermitente, entre a realidade da consciência e a realidade do sentir, sobrevive-se ao momento, fica-se desatento ao eterno presente, mas aquece-se a alma com o momento que embriaga, fecha-se os olhos à consciência do sentir, e quando dentro de nós grita a vida que se vive, sente-se o desejo no corpo inerte que procura o que é viver… mas isto de sensações, só valem a pena se for verdade o que se sente, porque é tanta a mania de sentir, que mesmo as sensações que se não recebe, já pertencem ao modo de existir…
Por isso tenho a certeza de que nada servem se for para morrer numa ansiedade, de querer acabar com o espaço e o limite, que separa a alma do coração, que separa as bocas de se encontrarem, e abrirem o supremo caminho da alegria para viver, que me faz sentir o pulsar nas veias de um beijo de fogo que a volúpia encerra, que despe a tristeza inútil que nos invade, para ascendermos para alem do que se vê… devemos então abrir-lhe os braços para não o deixar-mos a soluçar em vão…

excedi-me um pouco na minha deambulação pelo amor, e se não faço nenhuma referencia ao poema ou à tua escrita, é simplesmente porque faltam-me adjectivos que realmente lhe façam justiça

Carlos Ramos disse...

Dizeres de A. concordo plenamente com o teu comentário quanto ao tema Amor. Mais concordo no que respeita aqueles que por mania dizem sentir mas que realmente nada operam no seu eu e não se transfiguram nem transfiguram ninguém. Agradeço por isso as tuas sábias e sentidas palavras.